1/2/2010 – Os palanques de Lula

Os palanques de Lula

Por Marcos Coimbra*,
No Correio Braziliense

Nesta eleição, a história é outra. Do alto de seus píncaros de aprovação, Lula não só criou a candidatura que quis e a vinculou a um projeto de estrita continuidade, como não se cansa de propor ao eleitor que vote em Dilma pensando nele.

Se existe uma coisa sobre a qual se pode dizer com certeza que “nunca antes, na história deste país, se tinha visto” é o empenho com que Lula se aplica na eleição de Dilma. Nenhum presidente que o antecedeu chegou nem perto de seu afinco.

Não seria de esperar que, na República Velha, houvesse precedentes. As eleições que fazíamos não implicavam disputas reais, pois tudo (ou quase tudo) se resolvia nas confabulações da oligarquia, salvo em exceções de pouca monta.

Entre o fim da Era Vargas e o golpe de 1964, elegemos quatro presidentes, dos quais nenhum arregaçou as mangas para fazer seu sucessor. Dutra teve que se contentar com Cristiano Machado na eleição de 1950; Getúlio se matou; Juscelino sequer desejava que o marechal Lott, seu companheiro de PSD, fosse candidato; e Jânio acabou antes de começar.

Em função disso, os eleitos governaram sem ter que obsequiar um patrono (o que não quer dizer que, por essa razão, tivessem sido bons presidentes).

Da redemocratização para cá, foram cinco eleições presidenciais. Na primeira, Sarney não apresentou candidato e os 22 que a disputaram queriam vê-lo longe. Collor, por motivos óbvios, não indicou ninguém.

Itamar apoiou Fernando Henrique, mas no âmbito de uma relação tensa, sem afeto recíproco ou companheirismo. Aliás, se tivesse podido, é pouco provável que Itamar apontasse seu ministro da Fazenda como candidato. Nenhum dos dois se entusiasmava com o outro.

As reeleições do próprio Fernando Henrique e de Lula são coisa diferente. Para o cidadão comum, o que aconteceu foi que eles tiveram um mandato longo, de oito anos, com uma renovação na metade. Não faria sentido dizer que FHC apresentou FHC em 1998 ou que Lula indicou Lula em 2006.

A rigor, apenas em 2002 houve uma proposta real de continuidade, ainda que tímida e contraditória. Quando Serra prevaleceu como candidato do PSDB, passou a representá-la, o que era sublinhado por seus vínculos com Fernando Henrique. Mas foi a contragosto que ele assumiu o rosto do governo, muito impopular àquela altura.

A campanha de Serra, ao contrário do que acontece agora, evitou a identificação com o presidente, que, embora entendesse o porquê, nunca assimilou bem o que se queria dele.

Uma coisa era concordar com o raciocínio estratégico que recomendava que permanecesse distante do candidato de seu partido, seu ex-ministro e amigo. Outra, aceitar que sua presença era danosa.

O fato é que Fernando Henrique, a bem dizer, ficou sem candidato. E Serra, para não pagar pela proximidade, terminou em uma espécie de limbo, sem poder ser oposição, nem querer ser governo. Até hoje, há quem atribua a isso parte da responsabilidade pela derrota que sofreu.

Nesta eleição, a história é outra. Do alto de seus píncaros de aprovação, Lula não só criou a candidatura que quis e a vinculou a um projeto de estrita continuidade, como não se cansa de propor ao eleitor que vote em Dilma pensando nele.

Desde 2008, seu principal objetivo passou a ser torná-la mais conhecida e mais associada a seu nome. Para alcançá-lo, está no palanque há dois anos, misturando os papéis de presidente da República e liderança partidária.

É complicado, na democracia, fixar as fronteiras que separam um do outro. Mas é nítido quando se ultrapassa o limite do razoável. E é quase um consenso que Lula já cruzou essa linha mil vezes e que continua a cruzá-la a toda hora. Custa entender como nossa legislação e o Judiciário não o proíbem de insistir nesse comportamento.

Em muitas coisas, Lula diz que age como seus antecessores, que só faz o que “todo mundo” faz. Foi o que ele afirmou sobre o financiamento de campanhas, o preenchimento de cargos, o aparelhamento do governo e as ligações com a banda podre do sistema político.

Nunca foi uma justificativa, mas servia de desculpa. Agora, é ele quem cria um novo precedente.

Lula é uma pessoa extraordinária em muitos aspectos, como até seus adversários admitem. Achar que pode tudo, na hora e do jeito que quer, não é uma qualidade, nem na administração de sua vida pública, nem na vida particular. Em ambas, os excessos têm preço.

(*) Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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