23/4/2010 – Dilma x Serra: comparar biografia ou programa

A biografia, o programa e as circunstâncias: eis os dilemas da eleição presidencial

Por Antônio Augusto de Queiroz*

Um consenso já se formou entre petistas e tucanos: a eleição será plebiscitária, polarizada entre PT e PSDB. Mantidos os candidatos, o eleitor decidirá por Dilma ou por Serra. Não há espaço para outras forças. Simples assim.

Nos argumentos para convencer os eleitores, os petistas querem comparar os programas de governo, utilizando como parâmetro as experiências de poder do PSDB e do PT, portanto, de FHC e Lula. Os tucanos querem comparar biografias, de Dilma e de Serra, deixando no passado os governos anteriores.

Ambos têm razão em suas táticas. Os petistas porque as vantagens pró-Lula, especialmente na área social, são enormes. Os tucanos porque seu candidato possui maior experiência política e administrativa e poderá alegar que o sucesso de Lula teve por base o governo FHC.

Para Dilma não será muito difícil, com a ajuda de Lula, mostrar que seu Governo será a continuidade do atual, tanto do ponto de vista programático, tanto do ponto de vista de escalões intermediários do Governo, aqueles que tocam a máquina pública.

Pode mostrar as realizações sociais, como o programa Bolsa-Família, o crescimento econômico e dos salários, a geração de empregos e a distribuição de renda, o aumento real do salário mínimo, do salário dos servidores e o ganho dos aposentados, a postura de diálogo com os movimentos sociais, e tudo isto sem perseguição ao setor empresarial. Pelo contrário.

Mas se ganhar, o mérito será de Lula. Se perder, a responsabilidade será atribuída a ela – Dilma.

Para os tucanos, entretanto, não será uma tarefa fácil – mesmo com o apoio declarado da grande imprensa, que tem dado ampla cobertura positiva ao candidato do PSDB – focar apenas na biografia do candidato, como alguém mais experiente e capaz para o período pós-Lula.

Uma coisa é o cidadão José Serra – político experiente e de boa reputação – e outra é o seu entorno, ou seja, os partidos e pessoas que o apóiam e irão governar com ele, se ganhar.

A idéia de que os programas são praticamente iguais – já que os tucanos pretendem manter os programas sociais – e dizer que eles tiveram origem no Governo FHC, não será facilmente aceita.

De um lado, porque a memória do Governo FHC, associada a privatizações, corte de direito de trabalhadores, servidores e aposentados, ainda está fresca na cabeça e no inconsciente coletivo.

E, de outro, porque as forças que apóiam José Serra, tanto no plano partidário, quanto na área empresarial, não deixarão de exigir um grande ajuste fiscal, com corte em despesas do Governo, como, por exemplo, na área de pessoal.

Aliás, as coisas não têm sido fáceis para José Serra nas disputas presidenciais. Em 2002, ele foi o candidato da continuidade num ambiente de mudança. Em 2010, ele é o candidato da mudança num ambiente de continuidade.

Se perder, José Serra terá o conforto de dizer que as circunstâncias lhe eram desfavoráveis. Se ganhar, poderá afirmar que superou todos os obstáculos, inclusive as circunstâncias contrárias.

E o que dizem as pesquisas? Elas apresentam resultados contraditórios entre os diversos institutos e até diferenças internas entre opção de voto quando a resposta é espontânea e quando é estimulada.

Nas pesquisas espontâneas, quando o eleitor fala o nome do candidato sem acesso à lista dos concorrentes, Dilma está na frente. Na pesquisa estimulada, aquela que o eleitor só fala em quem pretende votar após ouvir a lista de candidatos, José Serra está na frente.

As pesquisas, como se vê, podem ser quantitativas ou qualitativas. As primeiras (quantitativas) levam a bons diagnósticos sobre a situação dos candidatos; é uma espécie de retrato do momento. As qualitativas podem ser uma excelente fonte de prognóstico, com antecipação de tendências e rumos da eleição.

Nas pesquisas qualitativas, muitos dos que se declaram eleitores de José Serra não sabem, por exemplo, que é ele é do PSDB, portanto, do partido do ex-presidente FHC, nem que Dilma é a candidata de Lula.

As três coisas fundamentais numa eleição presidencial – além da biografia do candidato, do programa de governo e das circunstâncias – são:

1) bom espaço no horário eleitoral gratuito,

2) bons palanques estaduais , e

3) muito dinheiro para fazer campanha.

E isto as coligações lideradas pelo PT e pelo PSDB têm.

Agora é com os eleitores, que devem analisar os candidatos e seus aliados, bem como os discursos e programas de governo das coligações.

Que a decisão seja a melhor para o País.

(*) Jornalista, analista político e diretor de Documentação do Diap

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