29/3/2010 – Pobre burguesia brasileira

João Guilherme Vargas Netto*

O jornal Valor Econômico do dia 22 de março publicou uma grande reportagem de Sergio Lamucci e Samantha Maia sobre o “lobby industrial” com a lista dos presidentes das federações da indústria dos Estados e da Confederação Nacional da Indústria.

É a primeira vez que o quadro completo destas lideranças fica consolidado em uma apresentação única, destacando-se as opiniões e reivindicações dos dirigentes do setor. O jornal informa, também, que “a redução da jornada para 40 horas é o foco de preocupação”.

É aí que a porca torce o rabo.

Todas as direções empresariais, envolvidas em uma cortina de fumaça ideológica e regressiva, combatem a redução da jornada – nenhuma delas percebendo o alcance pró-cíclico de tal redução na marcha atual da economia.

Onde estão – se é que existem hoje – os Severo Gomes e os Dílson Funaro? Os senhores da indústria, emprenhados pelo ouvido, como a virgem Maria dos evangelhos apócrifos, têm conseguido expressar opiniões que passam longe da realidade vivida (até mesmo das reduções já existentes e negociadas) e se encantam com as desorientações dos escribas de aluguel, falsos ideólogos (redundância necessária) que têm, como o Chacrinha, mais confundido que esclarecido.

Desde que a campanha sindical pela redução tomou corpo nas empresas e no Congresso Nacional, houve quatro grandes fases dos argumentos esgrimidos pelo empresariado. Em um primeiro momento, a redução afetaria a competitividade externa da economia brasileira.

O reconhecimento do papel estratégico do mercado interno na superação da crise anulou essa argumentação. Depois, foi mencionado o efeito desorganizador da redução, em especial para as pequenas e médias empresas. A alta produtividade e a alternativa possível de reduções graduais no tempo esvaziaram este argumento.

Foi então convocado o velho chavão do choque entre o legislado e o negociado: reduções seriam bem-vindas, se fossem negociadas. Mas, na vida real, a negação ideológica da redução faz com que as negociações propostas não sejam aceitas.

E, finalmente, quando cresceu no Congresso a pressão pelo voto, foi inventado o argumento do “caráter eleitoreiro” da campanha, como se a economia, a justiça social e o progresso tivessem que ser penalizados pelo calendário.

Em todas as quatro fases assacou-se despudoradamente o absurdo de que a redução da jornada aumentaria o desemprego.

A pobreza teórica dos dirigentes patronais os faz esquecer que, em vários assuntos, os seus interesses foram também defendidos pelos dirigentes sindicais que compreenderam o alcance das propostas; como resultado deste casamento virtuoso, vieram as vitórias na luta contra os juros altos e os spreads bancários, a eliminação temporária do IPI em vários setores, na correção da tabela do imposto de renda e a taxação emergencial do aço chinês.

A timidez do setor industrial fez com que a vitória no reajuste do salário mínimo fosse vitória exclusiva do movimento sindical e do presidente Lula, com efeito benéfico para todos.

Os empresários agiriam com mais sabedoria se, abandonando a falsa orientação agressiva contra a redução e superada a passividade que revelaram na luta pelo reajuste do mínimo, passassem a defender em seu próprio interesse a redução constitucional da jornada.

(*) Membro do corpo técnico do Diap e consultor sindical de diversas entidades de trabalhadores

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