5/4/2010 – As pesquisas brasileiras

Marcos Coimbra*

Até agora, as eleições presidenciais de 2010 já bateram dois recordes: 1) são as que mais cedo começaram em nossa história política, e 2) são, de todas as que fizemos, aquelas onde mais tivemos pesquisas. Desde sua largada, há mais de três anos, não deve ter havido um só mês em que pelo menos uma não tenha sido divulgada.

Daqui para frente, esse ritmo só tende a aumentar. De abril a junho, quando serão realizadas as convenções dos partidos, a frequência se intensificará, com periodicidade cada vez menor.

Depois de julho e, especialmente, do dia 18 de agosto em diante, quando se inicia a propaganda eleitoral na televisão e no rádio, uma verdadeira enxurrada de números vai desabar sobre o eleitorado. Sem contar que as eleições nos estados também estarão quentes e merecerão as próprias pesquisas.

A maior parte das pessoas fica confusa com tantas porcentagens, tabelas, análises por segmento e cruzamentos de dados. O que parece claro a um estatístico ou especialista chega a ser incompreensível para o cidadão comum, a quem, em última instância, as pesquisas de divulgação pública se destinam.

Como são normais as variações entre as pesquisas, o quadro se complica. Os resultados do mesmo instituto podem variar de um levantamento para outro, nem sempre em sentido igual. Entre institutos, as oscilações de resultados são ainda mais comuns.

Quem torce por um candidato olha qualquer pesquisa em que ele não aparece bem como se tivesse sido deliberadamente falsificada. Assim, ora acha que um instituto é ótimo, ora péssimo, em função de como seu preferido se sai. Volta e meia, vê-se alguém tecer uma longa argumentação para provar que um instituto foi “comprado” e ser desmentido a seguir, quando uma nova divulgação põe por terra sua hipótese conspiratória.

Parte dos problemas decorre do modo como algumas pesquisas são apresentadas. É o caso, tipicamente, das que são feitas por institutos ligados a veículos. Por interesse comercial ou solidariedade da redação com os colegas do departamento de pesquisa, seus levantamentos são divulgados pela empresa patrocinadora como se fossem melhores, mais verdadeiros que outros. Não o são, e o pior é que fingir que só um é “bom” prejudica a credibilidade de todos.

Um dos mais importantes pesquisadores das pesquisas políticas no Brasil (senão o maior), o professor Marcus Figueiredo, do Iuperj, do Rio de Janeiro, vem avaliando o desempenho do setor nos anos após a redemocratização. Seus estudos nos ajudam a visualizar melhor o que é o trabalho dos institutos e o que a opinião pública pode esperar deles.

A primeira coisa é que, de 1989 até agora, o desempenho médio dos principais institutos que se dedicam ao tema (Ibope, Vox Populi e Datafolha, até 2002, junto com a Sensus, daí em diante), nas eleições presidenciais, é melhor que dos congêneres americanos, entre 1956 e 1996.

Nossa margem de acerto é significativamente melhor que a deles. A média das diferenças entre as intenções de voto estimadas pelos institutos para os candidatos e os resultados oficiais foi, no Brasil, nas cinco eleições que fizemos, de 1,4 ponto percentual, enquanto lá foi de 1,9. Eles foram bem, mas nós fomos muito bem.

Em segundo, que as variações de desempenho entre os institutos, nesse período, nas eleições para presidente, foram irrelevantes. Em 1989, a média das diferenças entre o que os três institutos previam, candidato a candidato, e o que aconteceu na urna foi de 1,6 ponto, sendo que nenhum dos três se afastou dessa média em mais que 0,8 ponto.

Ou seja, todos previram a mesma coisa e todos tiveram o mesmo nível de acerto. Em 1994, a discrepância média foi ainda menos relevante, situando-se em 0,9 ponto percentual, com números quase idênticos para os três. E assim em 1998 (diferença média de 1,6 ponto), 2002 (de 1,1) e 2006 (de 1,9).

Não é fácil convencer pessoas apaixonadas de que o trabalho dos institutos é desapaixonado. Mas é certo que a opinião pública pode esperar deles, nas eleições de 2010, o mesmo que mostraram nas últimas: um trabalho bem feito, que ajuda o cidadão a saber como andam as intenções de voto a cada momento.

Serão muitos números, nenhum mais correto que outro, alguns até incoerentes. Mas todos pintando o mesmo quadro, o longo processo através do qual 135 milhões de pessoas formam suas escolhas a respeito de quem querem que governe o Brasil nos próximos anos.

(*) Sociólogo e presidente do instituto Vox Populi. Publicado originalmente no Correio Braziliense (4)

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