Agora, o apagão é na saúde privada

Beneficiada com a elevação da renda, a nova classe média lota clínicas, consultórios e laboratórios particulares em busca de tratamento médico. Mas as empresas não conseguem administrar o aumento da procura, e a espera é enorme Foi-se o tempo em que atendimento na rede particular de saúde era sinônimo de agilidade, tranquilidade e conforto. As enormes filas de espera dos pacientes, que só conseguem marcar consultas, exames e procedimentos meses à frente,

mostram que as empresas do setor vêm tratando mal seus clientes. Consultórios e emergências dos centros hospitalares, clínicas e laboratórios privados não dão conta de administrar o volume de pessoas que os procuram em busca de tratamento. Quanto mais sofisticado o diagnóstico, maior a demora. Ela pode chegar a meses, tempo que as entidades de defesa dos consumidores considera acima do razoável em serviços pagos e que necessitam de retorno breve.

O principal motivo para o crescimento da procura é a ascensão à classe média de 20 milhões de trabalhadores, cuja renda foi catapultada na última década como em nenhum outro período. Eles aderem a planos de saúde e têm, pela primeira vez, a chance de optar pela medicina privada, decepcionados com o serviço público. “Pessoas que nunca tiveram acesso a saúde de qualidade estão buscando prevenção. Por isso, a procura por exames e consultas tem sido alta”, justificou Yara Costa, supervisora regional da Dasa, empresa responsável pelos laboratórios Pasteur e Exame no Distrito Federal.

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) corroboram esse ponto de vista. Em 2000, 30,7 milhões de pessoas tinham contratos vigentes com operadoras de planos de saúde. No fim de 2006, eram 36,7 milhões de coberturas, crescimento de 19,5%. Após esse período, as adesões turbinaram as estatísticas, com cerca de dois milhões de novos contratos a cada ano. Em 2009, o número de usuários já era de 41,9 milhões e chegou a expressivos 45,5 milhões no ano passado, de acordo com o último levantamento do governo. Em uma década, a expansão foi de 48,2%. Se mantida essa proporção, o Brasil deve encerrar 2011 com 50 milhões de beneficiários, o que representa mais de um quarto da população.

Hora extra

Para tentar normalizar a situação, as empresas do setor correm para contratar profissionais e abrir novas unidades. Yara conta que, apenas no primeiro trimestre de 2011, a empresa abriu quatro novos estabelecimentos. “Os pedidos para a realização de exames de imagem, como ressonâncias magnéticas, são enormes. Em algumas unidades, atendemos até 150 pacientes por dia com esse tipo de demanda. Nos dias mais movimentados, médicos e técnicos precisam fazer hora extra para conseguir dar conta do recado”, disse.

Para o presidente da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Henrique Salvador, a grande procura por atendimentos particulares reflete o crescimento do número de trabalhadores assalariados, que recebem das empresas planos de saúde coletivos. “Cerca de 80% das consultas feitas nos ambulatórios particulares são feitas por convênios concedidos por empresas. No ano passado, houve crescimento de 9% no volume de atendimento por planos de saúde”, afirmou.

São raros os casos de pessoas que conseguem atendimento rápido, mesmo pagando o convênio em dia. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) revelou, após pesquisa, que 88% dos usuários de planos de saúde já enfrentaram dificuldades na marcação de consultas, exames e outros procedimentos. “Esse transtorno causa muita dor de cabeça. Não por acaso, o

 

setor é sempre lembrado nos rankings de reclamações dos consumidores”, explicou a advogada do Idec Juliana Ferreira. Ela acredita na existência de dois fatores que motivam a insatisfação na saúde particular: o aumento no número de pacientes e a falta de estrutura das empresas do setor. “As operadoras não se prepararam para atender uma maior quantidade de beneficiários. O problema é crônico.”

Por causa da demora, a procura por atendimento nas emergências cresce significativamente, causando lotação nos prontos socorros. “Muitas vezes, o mesmo médico que demora meses para atender uma consulta marcada está de plantão em um hospital. Sabendo disso, o paciente corre para lá para conseguir sua consulta. Isso precisa ser revisto”, avaliou Juliana. O Idec recomenda que, caso o usuário se sinta prejudicado, deve procurar os órgãos de defesa do consumidor ou acionar a Justiça.

Os casos mais alarmantes ocorrem em determinadas especialidades. Levantamento da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) mostra que o tempo médio de espera para conseguir uma consulta com psiquiatras, neurologistas e dermatologistas superou 20 dias. “Várias pessoas procuram atendimento preventivo, mas outras precisam de atenção imediata.

A saúde não pode esperar”, disse a supervisora da Proteste, Polyanna Silva. Para tentar amenizar os efeitos das longas filas, a ANS abriu consulta pública, no ano passado, para saber qual seria a espera máxima que um paciente poderia suportar. Para atendimento de consultas básicas (pediatria, clínica médica, cirurgia geral, ginecologia e obstetrícia, cardiologia, ortopedia e traumatologia), o governo quer que ela seja de, no máximo, sete dias. Outras áreas teriam limite entre sete e 14 dias. Exames de laboratório, como de sangue e de urina, precisariam ser agendados em três dias. A proposta também prevê que os diagnósticos por imagens sejam marcados em até 10 dias.

Desistência

Enquanto as novas regras não vêm, os usuários perdem a paciência nos hospitais e clínicas do país. “Cheguei a ficar seis horas no consultório esperando para ser atendida. Desisti e fui embora. Vou tentar remarcar”, relatou a designer gráfica Simone Silva, 42 anos. Segundo ela, uma ampliação da rede particular de saúde é fundamental. “Hoje, quase todas as pessoas têm convênio e não há estrutura para tanta gente buscando atendimento.” O desgosto é compartilhado pelo comerciante Edmar Ferreira, 64 anos. No começo do ano, enquanto tentava marcar um exame pedido por um proctologista, Ferreira precisou aguardar por mais de 30 dias. “Os hospitais sempre alegam a mesma coisa: muitas pessoas e pouca gente atendendo”, reclamou. A professora Rosimeire Franco, 44, viveu situação semelhante: “Em fevereiro, tentei marcar uma ressonância magnética, que era urgente, e tive de esperar 20 dias. É um absurdo”.

(Colaborou Larissa Garcia)

Fila demorada – (Em dias)

As longas esperas para marcação de consultas e exames aborrecem os clientes

Consultas – Tempo médio

Psiquiatria 28

Dermatologia 26

Reumatologia 25

Endocrinologia 24

Neurologia 22

Ginecologia 20

Exames e procedimentos – Tempo médio

Otorrinolaringologia 27

Gastroenterologia 19

Angiologia 19

Ortopedia 14

Neurologia 11

Fonte: Proteste e clínicas

FABIO MONTEIRO – CORREIO BRAZILIENSE

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