“A acusação do Ministério Público Federal não faz nenhum sentido”

Ronaldo Lessa diz que o MPF deve perguntar ao governador Teotonio Vilela Filho sobre destino dos recursos do HGE

Por: MAURÍCIO GONÇALVES – REPÓRTER

Após passar duas décadas no poder e perder as três últimas eleições (duas nas urnas e uma por cassação da candidatura pela Justiça Eleitoral), o ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) volta à tona com mais um entrevero judicial. Bem ao estilo, Lessa reacende o paiol dinamitado do seu discurso e mira no Ministério Público Federal (MPF), mais precisamente contra o procurador Anselmo Lopes, que o denunciou por participação no desvio de R$ 5 milhões da obra da então Unidade de Emergência de Maceió. “Eu é que vou processá-lo; vou representá-lo no Ministério Público Federal por crime de calúnia”.

Lessa defende que a denúncia deveria ser dirigida contra o seu sucessor e adversário, o governador Teotonio Viela Filho (PSDB). “Cobre do atual governador, que foi quem pagou”. Mesmo com tantos problemas na Justiça, Ronaldo Lessa se mostra incansável na sua cruzada contra o que considera injustiças, e com a língua sempre afiada, para criticar outras instituições e esferas de todos os poderes. No plano político, ele denuncia que o PSB está virando um partido de direita, critica setores de dentro do próprio PDT, sugere que as eleições brasileiras não são limpas e que pode “ter sido roubado”.

Aos 63 anos, o engenheiro civil formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) hoje atua como presidente estadual do PDT e vice-presidente da Executiva do partido na região Nordeste. Ronaldo Lessa foi indicado para atuar como conselheiro no Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas só poderia atuar na instituição depois de ser nomeado para algum cargo no Ministério do Trabalho, que é comandado pelo correligionário do PDT, ministro Brizola Neto.

Gazeta. Após um bom período de vitórias, o senhor passa por uma lacuna em eleições. Como é viver entre altos e baixos?

Ronaldo Lessa. Isso faz parte da vida política. Estar fora do poder é um momento de reflexão, mas é bom, faz parte, completa a vida da gente como pessoa. Você precisa vivenciar todos os momentos, um momento de vitória em que representa a população. Mas se você perde, vai experimentar o outro lado. Não vou dizer que volta a ser um cidadão comum porque, quem já exerceu o cargo de governador duas vezes, carrega uma história, de coisas boas, de você ser abraçado, tirar fotos nos lugares, chega no shopping e é reconhecido, tratado com carinho. E às vezes, o contrário, você é perseguido, tem o lado dos que não gostam, dos que estão satisfeitos com o seu afastamento.

Muitos amigos do então governador se afastaram?

Sim, porque tem muita gente que só está ao redor do cargo, da função que você ocupa. [Amigos] da pessoa, são poucos.

O que mais lhe decepcionou nesses anos todos de política?

O que mais me decepcionou foi a gente ter lutado tanto para construir uma democracia, e muitas pessoas não estão mais aqui, morreram, como é o caso do Manoel Lisboa, que foi assassinado pela ditadura, da Gastone, do Manoel Fiel Filho, de Rubens Paiva, do Jaime Miranda… e hoje a gente vê as pessoas tratarem dessa democracia com desdém, com desrespeito. Isso preocupa. A gente precisa consolidar as nossas instituições, quer seja do Judiciário, Legislativo, Ministério Público ou Executivo, de forma a consolidar a democracia, os direitos humanos, as liberdades individuais e coletivas.

Como o senhor recebeu a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) de desvio de R$ 5 milhões na obra da então Unidade de Emergência?

Com indignação. É isso que eu estava dizendo quando me referi que a gente lutou tanto, teve pessoas que não sobreviveram para ver a democracia, e chega agora o Ministério Público, instituição fortalecida pela Constituição de 1988, que não tem cumprido o seu papel. Recebi a denúncia com indignação. Não tenho nenhuma participação nisso, a não ser trazer o dinheiro. Eu trouxe mais de R$ 15 milhões do governo federal para aplicar naquela obra.

Mas a pergunta chave é o que aconteceu naquela obra, naquela licitação?

Quem tem que responder é o Teotonio Vilela [governador do Estado, eleito em 2006], não sou eu, eu não era o governador. Eu saí no dia 30 de março de 2006, eu não fiz nem a concorrência, quem fez foi o Luis Abílio [ex-governador, vice de Lessa]. Se ela é nula, não fui eu que fiz, e ela não é nula, tenho certeza que o Ângelo [Bezerra, ex-presidente da Comissão de Licitação] e as outras pessoas que estão sendo acusadas vão provar que não devem, mas não é responsabilidade minha. Muito menos a obra, se ele [o procurador da República Anselmo Lopes, que fez a denúncia] diz que em 2009 descobriram que pagaram tudo, quando não foi feito tudo, apenas 70%. Então, ele cobre do atual governador, que foi quem pagou, mas me acusar… Por isso, eu é que vou processá-lo, vou representá-lo no Ministério Público Federal por crime de calúnia.

Por que o senhor enfrenta tantos problemas na Justiça?

Porque tenho coragem de fazer o contraditório. As pessoas preferem se agachar, fazer as trocas das benesses, e não é o meu caso. Eu não vim para enganar, nem para ser subserviente a ninguém. Se você assume uma liderança, se chega para o povo e se coloca como seu condutor, seu líder, você não pode depois traí-lo, quer seja com medo do Judiciário, do Ministério Público, seja de quem for. Eu fiz enfrentamento com a Assembleia Legislativa também, não foi só com o Judiciário. Agora, porque o Judiciário quer dinheiro eu vou ter que dar dinheiro ao Judiciário? Não. Eu não tenho uma folha para pagar? Eu não tenho um povo? Se prometi trabalhar para os pobres, eu vou trabalhar para essa elite? Para esses ricos?

Como assim, “o Judiciário quer dinheiro”?

Foi assim que começou a minha grande confusão com o Judiciário. Eles queriam porque queriam que eu aumentasse o duodécimo. É uma visão de direita elitista. Lamentavelmente, a Justiça é muito conservadora. Precisa mudar.

Quando governador, o senhor falava de uma máfia no Judiciário. O senhor se arrepende desse choque que teve com a Justiça?

Não, não me arrependo.

Matéria retirada do Jornal On-line Gazeta de Alagoas

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