A PEC 55 pode comprometer o tratamento do câncer no País

Enquanto discute-se o corte de gastos na Saúde, os medicamentos de alto custo para combater as neoplasias serão cada vez mais necessários
Carta Capital – por Ingrid Matuoka

Sergio Oliveira da Rosa, 56 anos, descobriu o câncer há dois anos após um exame no Hospital Conceição, em Porto Alegre. O que a princípio parecia um problema dermatológico, de manchas e coceira na pele, logo se revelou um linfoma de Hodgkin que tomara seu pulmão direito inteiro. “A primeira coisa que eu pensei foi: quanto tempo me resta?”.

Sem muitos recursos, Sergio se viu refém da fila de espera do Sistema Único de Saúde para iniciar a quimioterapia, enquanto seu fôlego e qualidade de vida iam se deteriorando. “Sou gremista, adoro jogar futebol, mas tive que parar porque qualquer esforço me deixava muito cansado”, conta.

Pouco tempo após o diagnóstico, um médico informou Sergio sobre uma pesquisa clínica em andamento no hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre, que ofereceu para o seu caso uma combinação de seis medicamentos de alto custo, ainda não disponíveis no SUS.

Atualmente, o sistema público oferece outro tratamento, com menor eficácia e mais efeitos colaterais. Sergio foi aceito para o tratamento de ponta, uma quimioterapia que durou oito meses, inteiramente custeada pela multinacional Takeda.

Gabriela Alerico, biomédica e coordenadora de pesquisa que acompanhou todo o tratamento de Sergio, afirma que ele teve resposta total à quimioterapia. “Isso significa que as chances de o câncer voltar existem, mas são mínimas”, explica.

O sucesso do tratamento de Sergio dependeu do apoio de uma instituição privada, mas nem todos os pacientes tem a mesma oportunidade. Em um cenário no qual os diagnósticos de câncer devem se tornar cada vez mais frequentes no País, o SUS precisará ampliar seu financiamento para dar assistência aos brasileiros com a doença.

Segundo uma estimativa do World Cancer Report, publicado em 2014 pela Organização Mundial de Saúde, OMS, em 20 anos ao menos 22 milhões de novos casos de câncer serão diagnosticados no mundo todo ano, fazendo da doença a principal causa de morte, superando as cardiovasculares e as cerebrovasculares.

Neste cenário, o corte de gastos na Saúde com a PEC 55, aprovada em primeiro turno nesta terça-feira 29, deve resultar em enormes dificuldades para o setor público brasileiro custear tratamentos contra as neoplasias.

Nos Estados Unidos e em outros países desenvolvidos  o câncer já é a principal causa de morte para quem tem mais de 45 anos. Mais de 60% de todos os casos anuais de câncer no mundo ocorrem na África, Ásia, América Central e América do Sul, onde somente 30% dos diagnosticados sobrevivem. Só na América Latina e Caribe, estima-se que a partir de 2030 uma a cada três pessoas será exposta a algum tipo de neoplasia, com um milhão de mortes ao ano. Para as mulheres, uma em cada nove deve desenvolver câncer de mama.

O mesmo estudo da OMS chama a atenção para outra mudança no padrão do câncer. Antes, considerada uma doença de risco para os mais velhos, ela já atinge pessoas cada vez mais novas.

Embora a oncologia tenha evoluído bastante nos últimos anos, o elevado custo ainda limita o acesso ao tratamento. Cada nova droga tem o preço médio de 10 mil dólares por mês, e certos tratamentos chegam a um milhão de dólares ou mais.

O médico oncologista do Instituto do Câncer Mãe de Deus Stephen Stefani explica que a inflação de terapias oncológicas é superior ao índice oficial de inflação (IPCA), pois o custo do desenvolvimento desses remédios é muito alto devido à necessidade de se investir em uma equipe altamente qualificada, tecnologias de ponta e muita pesquisa.

“Para obter um medicamento vitorioso, é necessário investir um bilhão de dólares, porque tem que pagar a droga que deu certo e todas as outras que naufragaram no processo de investigação”, diz Stefani.

Ele também aponta o gasto com tributos e propagandas como outros dois fatores que encarecem o estudo clínico. “Um carro de luxo pode custar quatro vezes mais do que um carro popular, mas nem sempre ele é quatro vezes melhor. Esse raciocínio vale também para os medicamentos”.

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