Discussão: jovem afirma estar ‘curado do homossexualismo’ há três meses

Opiniões favoráveis e contrárias à ‘Cura Gay’ foram ouvidas pela reportagem

 

Ana Paula Omena
 01 Jul de 2013

O projeto de decreto legislativo rotulado de “Cura Gay”, assim denominado por permitir ações que tenham como objetivo o tratamento da homossexualidade pelos psicólogos, será votado na próxima terça-feira, na Câmara Federal, e pode ser arquivado, mas a discussão em torno dele está longe de acabar.

Afinal, é possível ser ex-gay? Existe cura para a homossexualidade? A Tribuna Independente entrevistou gente que é contrária e favorável à proposta de número 234 de 2011, de autoria do deputado João Campos (PSDB/GO), que modifica a Resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia.

Flávio se diz ex-gay, graças a sua fé e religiosidade, apesar de não ver homossexualidade como doença. [Foto: Adailson Calheiros]                                                                                  

Flávio Bonfim, de 25 anos, é um dos personagens encontrados pela reportagem. Ele se diz curado do ‘homossexualismo’, embora ainda seja discriminado pelos seus trejeitos, por seu tom de voz agudo e por ter escolhido a profissão de cabeleireiro. Ele conta que quer dar o seu testemunho para outros jovens e afirma que é possível mudar a orientação sexual. “Estou curado há três meses pela fé e agora procuro uma serva de Deus para me relacionar com ela”, enfatizou o ex-gay.

Bonfim revelou que aos 16 anos manifestou o desejo de beijar pessoas do mesmo sexo. Ele foi discriminado pela sociedade, se prostituiu e se viu à beira da morte por conta de atitudes perigosas que tinha, em busca de relacionamentos. Ele relata que tinha um desejo exagerado por homens, mas por meio de sua entrega a Deus viu sua vida renascer e acredita que outros jovens, assim como ele, podem ser curados da homossexualidade.

“Achava errado o que fazia, porque conhecia a palavra de Deus. Ele fez o homem e a mulher, e não dois homens e duas mulheres. Brincava com meninas, tive minha primeira relação com homem no colégio, assumi para a minha mãe que tinha um caso com o meu amigo de infância, com quem fui criado. Ela aceitou, porém com limitações e passados os anos descobri que não queria ser gay”, disse.

“Ser gay não é uma doença, ninguém nasce gay. Ser gay é uma opção. Namorei meninas na minha adolescência e senti desejo de conhecer coisas novas. Passei um bom tempo com um cara. Ainda sinto desejo por homens, porque a carne é fraca. Mas preencho esse desejo com atividades na igreja. Recebo ligações de amigos homossexuais, mas não atendo. Estou vencendo a tentação e creio que irei encontrar uma mulher de Deus”, destacou.

“Para Deus existe ex-homossexual sim, porque para ele nada é impossível. Estou me esforçando e não quero voltar mais. Não quero mais isso para a minha vida”, afirmou.

Resolução é vista como marco na defesa dos direitos humanos

O Conselho Regional de Psicologia em Alagoas se diz contrário ao projeto da “Cura Gay” por não acreditar que homossexualidade seja uma doença.

Ubiratânia Amorim, membro do Conselho, explicou que o Conselho Federal de Psicologia, em sua Resolução 1/99, orienta os profissionais da área a não usarem a mídia para reforçar preconceitos contra homossexuais, tampouco propor tratamento para curá-los.

“Esta resolução é um marco internacional na defesa dos direitos humanos. No Brasil, há mais de 20 anos, a homossexualidade deixou de constar no rol das doenças – classificadas pela Organização Mundial de Saúde -, entretanto ainda hoje existem pessoas insistindo em tratá-la como patologia. Enquanto Conselho Regional, pensamos diferente, estamos mobilizados com a causa”, destacou.

E acrescentou: “O CRP 15 não apóia este projeto, pois fere as nossas resoluções e leis que regem a profissão. Não podemos curar uma doença que não existe”.

Para Ubiratânia e o Conselho, homossexualidade não é uma doença, mas sim uma orientação sexual. “Se for pensar homossexualidade como doença, terá que ter passe livre, benefícios, aposentadoria, entre outros”, argumentou.

A psicóloga ainda afirma que uma pessoa não deixa de ser homossexual. “Se ela diz que hoje não é mais homossexual é porque ela nunca foi, apenas teve a curiosidade de experimentar relações com pessoas do mesmo sexo”, avalia.

Igrejas

A Catedral Metropolitana de Maceió foi procurada, mas preferiu não comentar sobre o projeto denominado Cura Gay.

A reportagem tentou ouvir outros pastores evangélicos que também preferiram não dar entrevista. Eles apenas opinaram afirmando que homossexualidade não é doença, mas sim uma escolha que pode ser mudada ao longo do tempo.

Pastor diz que discriminação parte da mídia

O pastor alagoano Ildo Rafael é favorável ao projeto denominado ‘Cura Gay’, apesar de considerar a nomenclatura uma forma discriminatória por parte da mídia aos evangélicos. “O Marcos Feliciano [presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, que aprovou o projeto] é a bola da vez por ser da bancada evangélica e a mídia está tentando distorcer o projeto que não fala em ‘cura gay’. O projeto nem é da autoria dele, mas sim do deputado João Campos, também da bancada evangélica. A proposta do projeto é para que os psicólogos retomem o atendimento a pacientes homossexuais, porque foram proibidos de acompanhar pacientes nesta condição”, salientou.

Segundo o artigo 3º da Resolução 1/99 do Conselho Federal de Psicologia, “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização [tratar como doença] de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”.

Em seu parágrafo único, o artigo diz: “Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. É esse trecho que o projeto quer derrubar.

Para Ildo Rafael, homossexualidade não é doença, mas sim uma tendência desde nascença. “Não é uma doença. Agora, se a pessoa quiser, pode receber uma reorientação e pode mudar sim, basta querer”, opinou. “Estatísticas mostram que não é a religião que muda a pessoa, mas sim o evangelho”, emendou.

Retrocesso
‘Cura Gay’ vai de encontro à luta contra a discriminação

O projeto da ‘Cura Gay’ é um equívoco, na opinião do presidente do Grupo Gay de Alagoas (GGAL), Nildo Correia. “Hoje há uma luta grande para aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e classificar homofobia como crime. Não acreditamos que o projeto será aprovado”, mencionou.

Nildo Correia tomou o seu exemplo para considerar que ser homossexual não é uma doença, mas uma orientação, uma origem. “O indivíduo já nasce assim, não tem essa de estar homossexual, a pessoa vai se descobrindo. Agora há aqueles que reprimem o desejo pelo mesmo sexo, muitas vezes em virtude da educação doméstica e machista da sociedade, principalmente no Nordeste”, declarou.

Ele conta que sofreu preconceito e até tentou se matar apontando um revólver para a sua boca por conta da rejeição da sociedade e de seu pai, mas conseguiu superar o problema e hoje é representante da luta gay contra a discriminação. “Sofri muito. Quando meu pai era vivo dizia que seu maior sonho era ter um neto do seu único filho homem, que era eu”, revelou o presidente do GGAL.

Para Nildo Correia, o papel do profissional psicólogo não é curar a homossexualidade, mas orientar o homossexual e dar apoio psicológico para que ele se aceite e saiba enfrentar a discriminação social e familiar, quando acontece.

“A homossexualidade não é uma doença, não tem cura”, afirma o presidente do GGAL, que completa classificando o projeto como retrocesso.

 

Reprodução Tribuna Hoje.

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