Governo promove falsa ‘pesquisa’ sobre Turismo

‘Estudo’ coloca Maceió entre as cidades com uma das orlas marítimas mais lindas do mundo
Carla Serqueira – Gazeta de Alagoas
05/05/2013
A informação ganhou até capa do Diário Oficial do Estado. Uma grande foto da orla marítima de Maceió coloriu de azul o impresso do governo. “Orla de Maceió é uma das mais belas do mundo”. O leitor é levado a crer que a pequena capital se destacou no exterior em alguma pesquisa de instituição especializada em turismo. Ainda mais, quando lê o que vem depois do título: “Após ser escolhida a cidade mais bonita do Brasil, Maceió figura agora entre as cidades com as orlas marítimas mais bonitas do mundo, segundo o site Cultura e Viagem WordPress”.

O informe governamental indica um levantamento anterior, mas nacional. Apesar de implícita, a referência é para uma pesquisa realizada durante três dias pelo site iG, conhecido em todo país. Segundo o portal, uma enquete coletou votos de internautas e 21.992 deles (o equivalente a 38% dos participantes) escolheram Maceió como a cidade mais bela do Brasil. Agora, o levantamento é internacional. A orla da capital alagoana foi escolhida “a mais linda do Atlântico na América do Sul”. Miami Beach (Estados Unidos), Cancún (México) e San Sebastián (Espanha) aparecem na lista. Mas… que lista é essa? Quem elaborou?

Blogueiro reclama que não foi procurado

O blogueiro Fábio Lins de Lessa Carvalho tem 37 anos e é alagoano de Maceió. Foi ele que, despretensiosamente, como disse depois, publicou sua opinião sobre as orlas que deveriam ser reconhecidas como “as mais lindas” de cada costa mundo afora. Sem critérios científicos, usando o método da intuição, Fábio colocou a orla de Maceió, a única do Brasil, entre as demais “mais lindas” do planeta e deu no que deu. Depois que o governo divulgou a opinião do servidor público como notícia nos veículos oficiais – Diário Oficial, Agência Alagoas e canais que mantém nas redes sociais, como Twitter – a “novidade” ganhou destaque na maioria dos sites alagoanos e foi até manchete de um jornal impresso local.

“Eu não divulguei notícia nenhuma. Expressei apenas a minha opinião. Os sites reproduziram a informação de forma equivocada. Nenhum deles me telefonou para saber como foi elaborada a lista. A reprodução foi indevida”, afirma Fábio Lins, que na última sexta-feira contou para a Gazeta que não havia tomado conhecimento da reprodução também no DOE. “Não vi a matéria no Diário Oficial e sobre o uso da informação pelo governo, não tenho nada a declarar”, enfatizou o servidor público, sem conseguir esconder o desconforto.

Secretário não vê “mal nenhum” no caso

Na troca de mensagens com os leitores, Fábio critica os sites que divulgaram sua opinião como notícia: “Este post das cidades com orlas mais bonitas já foi visualizado, em menos de uma semana, por mais de 7.800 pessoas e vem tendo uma enorme repercussão, com divulgação em alguns sites daqui do estado de Alagoas. Parece-me evidente que estes sites sequer tiveram o trabalho de verificar a procedência da informação, diferentemente do que você está fazendo. Sou alagoano, o que por si só, já me torna suspeito na escolha. Por fim, ratifico minha opinião pessoal, que aponta Maceió como a orla mais bonita do Atlântico na América do Sul, mas não creio que esta opinião deva ser exteriorizada por terceiros sem que seja apontado o contexto em que ela foi manifestada (opinião de um blog escrito por um alagoano)”.

No Diário Oficial, nada disso consta. A matéria é assinada por dois assessores de imprensa do governo, que praticamente reescrevem a postagem de Fábio Lins sobre as orlas campeãs. “São cidades de porte médio, exploram o turismo e têm moradores que sabem usufruir do fato de viverem em um local inspirador. São cidades mais descontraídas e ensolaradas, onde viver é uma comemoração, e não uma obrigação”, define o blogueiro. A mesma análise foi registrada nos veículos do governo. No texto, a secretária Estadual de Turismo, Danielle Novis, comemora o “estudo”. Segundo ela, Maceió figurar entre as orlas mais lindas do mundo “é um privilégio e um reconhecimento do invejável e singular litoral alagoano, que enche os olhos dos nativos e visitantes”.

Matéria retirada do Portal Gazeta Web.
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