Sem material, HU fecha as portas para a população do estado

Unidade suspende atendimento a pacientes por falta de itens básicos

 

Maurício Gonçalves – Gazeta de Alagoas

09/06/2013

 

Um hospital sem remédios é um hospital sem cura? Um hospital que suspende exames, consultas, internações e cirurgias por falta de material e de profissionais trata os doentes? Um hospital-escola vazio ensina o quê? É um hospital? A crise crônica que se arrasta há anos no Hospital Universitário (HU) sofreu um colapso agudo nas últimas semanas. O ataque se espalhou por artérias, afetou órgãos e deixou em coma o único hospital geral de Alagoas que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ameaça torná-lo um paciente vegetativo em quadro terminal.

Corredores que sempre estiveram lotados agora estãop vazios por causa da suspensão de atendimentos (Foto: Dayanna Melo)

O mês de maio e o início de junho foram caóticos no HU da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Quase duzentas cirurgias foram suspensas, internações e atendimentos básicos foram suspensas, a triagem de pacientes com câncer, interrompida, leitos da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), da maternidade, pediatria, clínica médica ficaram ociosos. Os corredores quase sempre lotados e barulhentos foram tomados pelo eco peculiar a ambientes vazios.

As portas do hospital foram fechadas para a população carente por causa da falta de itens básicos, como analgésicos, luvas, gazes e fios cirúrgicos. A estupidez chega ao ponto de faltar antibióticos, anti-inflamatórios e anestésicos no Centro Cirúrgico. Impossível operar, as equipes médicas ficaram quase duas semanas ociosas, enquanto milhares de pacientes esperam meses na fila do SUS.

Para não ver o paciente sofrer, famílias compram medicamentos

Esta semana, a Gazeta percorreu as instalações do HU durante dois dias, e constatou os problemas apontados por dezenas de profissionais, acadêmicos e pacientes. No laboratório, todos os exames foram suspensos. Nem mesmo um simples hemograma podia ser marcado, o que inferniza a vida de pacientes como a dona de casa Maria Nazaré Gomes.

Com dificuldade de locomoção e cirurgia de vesícula marcada para agosto, ela ficou aperreada quando não conseguiu marcar o exame de sangue do pré-operatório. “Disseram para voltar na semana que vem, e se eu não conseguir marcar de novo? Meu medo é perder a data da cirurgia”, lamenta. Nazaré mora em Rio Largo e tinha saído de casa com a filha, Valéria Gomes, às 6h30. Só foi consultada às 11h e, por volta de meio-dia, deu com a cara na porta do laboratório.

Situação precária também atinge funcionários

Vidas em risco, farmácias vazias: equipes em frangalhos. A rotina de estresse, impotência e frustração destrói os funcionários do HU de dentro para fora, em doses de tortura. “Ver que a infecção vai se agravar, que o paciente pode morrer e ficar sem poder fazer nada é horrível. Várias vezes chegamos em casa para chorar, desabamos e ficamos doentes. Quando eu fiz Enfermagem, era apaixonada, hoje eu sou frustrada”, desabafa a diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Ufal (Sintufal), Nadja Lopes.

A assistente social do HU, integrante do Fórum Alagoano em Defesa do SUS e do Conselho Estadual de Saúde, Analice Gomes, alerta que a negação desse direito à saúde pública coloca a vida desses pacientes em risco e compromete a qualidade de vida. “Causa um estresse profundo, um sentimento de impotência, o cotidiano é de angústia porque a gente está sem suporte institucional e não tem uma rede estruturada, não tem apoio de outros hospitais”.

População carente é a maior prejudicada

A diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Ufal (Sintufal), Nadja Lopes, lembra que também foram suspensos os serviços de Neurologia, Pediatria e até o cadastro e triagem para novos pacientes com câncer. “Também a redução de 12 para 6 leitos da UTI é muito grave, num estado como o nosso, tão carente de leitos de UTI. A população carente é a mais prejudicada, como a gente viu uma senhora com dificuldade de locomoção não conseguir marcar um exame e correr o risco de não fazer a cirurgia, após 60, 90 dias de espera”, observa a diretora do Sintufal. “Tem paciente que compra o contraste para fazer o exame”, completa.

No desespero, alguns pacientes recorrem a laboratórios populares para pagar mais barato e terminam perdendo o dinheiro porque os médicos não aceitam estes exames por causa da falta de confiabilidade. “Estou aqui há 9 anos vivenciando um drama diário de centenas de pacientes, mas nunca foi tão caótico, paciente chega aqui, morrendo em cima de uma maca, e não consegue internamento. Outro dia, um paciente desmaiou por uma hipoglicemia porque estava com fome”, critica Nadja.

A única sala de urgência do hospital funcionou sem um médico durante muito tempo. “Muitas vezes chegavam pacientes precisando de socorro imediato para não morrer, e a gente saía procurando médicos de outros setores”, diz Nadja. Ao invés de contratar um médico, a solução encontrada pelo hospital foi extinguir a sala de urgência, transformando-a num posto de enfermagem.

Direção da unidade justifica transtornos

Apesar de tudo, o HU é um hospital amado. “O HU faz parte da minha vida, sem ele, eu poderia nem estar viva”, afirma a paciente Lívia Cristina da Silva. Ao lado dela nas sessões de hemodiálise, Veronilda Agostinho concorda: “O serviço de nefrologia aqui é o melhor de todos, melhor que o de clínica particular. E é do SUS, viu?!”

“Se não fosse o HU, a qualidade que tem aqui, a minha mãe não estaria comigo hoje”, afirma o servidor público Vânio Cursino, filho da aposentada Ana Cursino. Quando soube que tinha câncer nos ossos, Ana foi desenganada que só teria pouco mais de um mês de vida. Quase sete anos depois, ela é só sorrisos ao lado do filhão companheiro. “Já estou mais de 90% curada”, diz a senhora, que brinca dizendo ter 15 anos de idade.

Após tentar o tratamento particular no Hospital Real Português, em Recife, eles garantem que o atendimento na Oncologia do HU é melhor. “Aqui tem o conforto de poltronas reclináveis, a qualidade do atendimento, a excelência do serviço, a atenção do pessoal”, garante o filho.

Além dos relatos, os números do HU também impressionam, com uma média mensal de 8.056 consultas, 608 pacientes internados, 216 partos (sendo 85% de alto risco), 350 cirurgias. O Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) registrou, no ano passado, 15.704 atendimentos, sendo 12.933 consultas médicas.

 

Matéria retirada do Portal Gazeta Web.

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