Aton Fon Filho: A direita sai de casa pela porta da esquerda

Aton Fon Filho: A direita sai de casa pela porta da esquerda
publicado em 26 de junho de 2013 às 15:24

Introdução

Esse trabalho busca estabelecer uma visão de classe das manifestações desencadeadas após as elevações de tarifas de transportes e da conjuntura que delas resultou. Embora considere principalmente a experiência de São Paulo, corresponde linha geral ao que o noticiário também sobre outras partes do Brasil.

Na Mídia em geral, e mesmo em manifestações da esquerda, vemos referências indiscriminadas a povo, jovens, pessoas, trabalhadores. Mas que “povo” é esse? Quais as determinações de classe desses “jovens” e dessas “pessoas”? De que “trabalhadores”  estamos falando? [2]

A Base da Pirâmide e a Classe Média

Partamos de alguns pontos sobre a situação da classe média e dos trabalhadores da base da pirâmide, com o respaldo da análise de SINGER (2012) sobre o lulismo [3]. Referida análise, no que aqui interessa, aponta que as diversas políticas econômicas e sociais do governo Lula geraram um realinhamento eleitoral que consiste, em termos os mais resumidos possíveis, em que a população de mais baixa renda [4] – ali chamada de subproletariado – a partir de 2005/2006 se incorpora no apoio a Lula. Essa faixa do proletariado teria interesse na mudança, mas, contraditoriamente, rejeitaria o conflito. Quer a mudança dentro da ordem.

Ao mesmo tempo, também no período 2005/2006, a classe média consuma sua passagem à oposição, fundamentalmente através do apoio ao PSDB, mas também, uma pequena parte, à oposição de esquerda.

POCHMANN aponta que os empregos gerados na década de 2000 ficaram concentrados na base da pirâmide social – com renda até 1,5 salários mínimos [5]. E que na faixa de renda acima de 3 salários mínimos chegou a haver importante redução das vagas:

“Na década de 1990, estabeleceu-se no Brasil um novo padrão de trabalho, composto por um menor ritmo de geração de postos de trabalhos e um perfil de remuneração distinto. Isso porque foram abertos somente 11 milhões de novos postos de trabalho, dos quais 53,6% não previam remuneração.

Na faixa de renda de até 1,5 salário mínimo, houve a redução líquida de quase 300 mil postos de trabalho, e esse segundo padrão de emprego diferenciou-se significativamente daquele verificado entre os anos 1970 e 1980.

Por fim, a década de 2000 apresentou uma alteração importante no padrão de trabalho da mão de obra brasileira, marcada por forte dinamismo nas ocupações geradas e no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal. Nas ocupações sem remuneração, houve a redução líquida de 1,1 milhão de postos de trabalho, enquanto na faixa de cinco salários mínimos mensais a queda total atingiu 4,3 milhões de ocupações. Em síntese, ocorreu o avanço das ocupações na base da pirâmide social brasileira. (Ver Figura 2.2.)

Esse privilégio da atenção aos trabalhadores da base da pirâmide fica evidente das tabelas a seguir, extraídas de POCHMANN (2012)

SINGER aponta, daí, uma “polarização entre ricos e pobres”. Lembra JESSÉ SOUZA, para quem

“A classe média brasileira, por comparação com suas similares europeias, por exemplo, teria o singular privilégio de poder poupar o tempo das repetitivas e cansativas tarefas domésticas, que pode ser reinvestido em trabalho produtivo e reconhecido fora de casa”. [6] [7]

E conclui, ele próprio,

“Daí a resistência da classe média ao programa do lulismo de erradicação da miséria, produzindo-se reação muito distante da indiferença política. O lulismo mexe com um conflito nuclear no Brasil, aquele que opõe “incluídos” e “excluídos”.

Essa classe média, vê-se, não obteve ganhos, e teve perdas econômicas.

Se piora mais grave não houve na situação dessa classe média, foi ela muito mais perceptível dada sua posição relativa, na medida em que viu os mais ricos passarem a ganhar ainda mais, decolarem e se afastarem, de modo que os de cima se perderam nas alturas, ao mesmo tempo em que os de baixo, os da base da pirâmide ou de baixíssima renda, tiveram uma certa ascensão, aproximando-se de seus calcanhares.

Essa queda relativa da baixa classe média foi o elemento material que a conduziu a, somada à questão ideológica da luta contra a corrupção, abandonar desde 2005 o PT e Lula e aderir definitivamente à oposição de direita (PSDB e aliados) e à  oposição de esquerda (PSTU, PSOL, etc. [8]

É certo que essa classe média não foi capaz de elaborar demandas econômicas, de aperceber-se concretamente de quais os motivos de sua insatisfação. Vê que está sendo lançada para o grupo de baixo, mas não é capaz de determinar onde lhe foram impostas as perdas que a rebaixaram (porque tais perdas, em geral, não existiram). E não encontra também resposta nos partidos da oposição, quer os de direita, quer os da esquerda.

Daqueles, obteve bandeiras vagas – “luta contra a corrupção”, “gerenciamento” – e destes bandeiras que não respondem a seu próprio interesse, mas ao interesse dos “de baixo”. Uns e outros, porém, encontram-se em torno de valores éticos que parecem permear suas plataformas políticas nas ações concretas, o que faz essa classe média ir-se posicionando em torno de palavras de ordem e questões de valores, genéricas.

Assim como foi se articulando – na sua vertente de esquerda, longe das demandas de classe, em torno de demandas ditas de direitos humanos, sob orientação multiculturalista. São os excluídos, não mais os proletários, os explorados, o foco de seus esforços organizativos. Assim é que questões de enfrentamento de classes, opondo, por exemplo, latifundiários e agrocapitalismo com trabalhadores canavieiros, sem-terra, pequenos proprietários foram apresentadas sem o conteúdo de classe, como expressão de defesa de uma identidade cultural, como questões indígena, quilombola, ambiental, etc.

A exploração capitalista foi seccionada e setorizada, passando a valer não pelo que é – pelas relações de produção – mas pelo que parece ser: mineração, agronegócio, construção de barragens, produção de transgênicos, destruidora do meio ambiente, destruidora da identidade cultural, etc.

Capturada pelo lulismo, a relação com os mais pobres passou a ser feita pela luta contra os efeitos da exploração, em lugar de ser feita contra a exploração, mas com as medidas governamentais atacando aqueles efeitos e amortecendo seus impactos, seja através de programas de complementação de renda, como Bolsa Família, seja através de programas sociais como Luz para Todos, PROUNI, Minha Casa, Minha Vida, etc.

De outro lado, opondo-se à perspectiva governamental, os mesmos óculos nublaram a visão da extrema-esquerda que, em busca de se opor ao lulismo, chamou aquelas medidas de “cooptação”  e passou a exigir, pela via da organização de movimentos sociais, medidas de efeito semelhante (fornecimento de cestas básicas, assentamento e programas de moradia para integrantes de movimentos de sem-teto, etc) [9].

Revelou assim essa extrema-esquerda um mesmo vício de substituir a causa pelo resultado, incapaz de fugir dos limites impostos pelo lulismo, mesmo se opondo a ele.

Ainda há que investigar e desenvolver melhor o impacto que pode ter tido sobre isso uma visão que sobrepõe a ética às determinações da luta de classes, resquício das lutas que levaram à superação da ditadura militar e do papel da igreja católica no processo.

Das lutas que resultaram na derrota da ditadura militar, primeiro, e das dificuldades advindas da prolongada crise econômica e descenso das lutas operárias – e urbanas, de modo geral –, decorreu a apresentação de inúmeras demandas como demandas de valores, éticas, e fundamentadas como direitos humanos.

Reivindicações que o desemprego profundo e prolongado tornavam impossíveis de serem formuladas em face do patronato, passaram a ser formuladas em face do Estado, apresentadas como direitos, e Direitos Humanos: direito à moradia, direito ao trabalho, direito à  saúde, direito ao transporte. Também daquelas lutas contra a ditadura, permaneceram as reivindicações de valores referentes a direitos identitários, vinculados à luta pela liberdade, como os valores anti-discriminatórios em geral, de raça, gênero, condição física, identidade e orientação sexual.

Isso promoveu a influência do multiculturalismo e da cultura de direitos humanos, sobrepondo-se, mesmo no interior das organizações marxistas, à visão dos processos de um ponto de vista de classes.

Daí, possivelmente, a evidência de um liame de defesa de elementos reduzidos a éticos, ou postos no âmbito de direitos humanos, unificando um bloco de organizações partidárias marxistas, organizações religiosas, movimentos sociais e identitários [10] e mesmo indivíduos dispersos na atualidade. Tais movimentos e indivíduos buscam unidade e até logram estabelecê-la em algumas circunstâncias, em torno de questões de proteção da identidade, mas raramente em torno de questões sociais. Assim, por exemplo, se é verdade que o MST pôde apoiar as causas indígena ou LGBTT, não se tem notícia de indígenas ou o movimento LGBTT apoiando ocupações do MST ou do MTST.

Se a classe média que adotou a oposição ao lulismo pela esquerda pôde se refugiar nas bandeiras éticas e identitárias, ou em sucedâneos dos mesmo programas lulistas, aquela que adotou a oposição pela direita se viu privada de demandas materiais, ou que pudessem ser expressas materialmente.

Esses setores adotaram a linguagem da extrema direita e hasteiam bandeiras como a da “meritocracia” contra as políticas de cotas e de inserção de faixas de renda mais baixa nas universidades; contra as políticas de complementação de rendas [11], etc, o que expressava muito mais o susto de ver uma ascensão dos de baixo do que, concretamente, uma redução de sua própria condição material.

Nesse sentido, as análises de POCHMANN e SINGER contêm dados semelhantes, não apenas no que toca à faixa de mais baixa renda – subproletariado, para SINGER; base da pirâmide, para  POCHMANN –, pois ainda que este não analise repercussões políticas e sociais dessa incidência econômica, elas ficam subjacentes, mas também com relação à classe média.

As manifestações em curso –  O Início – Hegemonia da Oposição de Esquerda

As manifestações de agora foram iniciadas por um movimento social de classe média, com uma demanda de interesse da população de mais baixa renda. O MPL é um movimento de classe média daquela oposição de esquerda, o que explica também a sua relação privilegiada com partidos como PSOL e PSTU, presentes nas manifestações desde o início.

Suas manifestações tinham um conteúdo e uma tendência à radicalização contra o governo municipal petista e as correntes que o apoiam. Mas o MPL é, também, um movimento que se reivindica na faixa do autonomismo e do anarquismo, da ação direta e da organização horizontal.

Esse fato, se autoriza a participação da juventude de classe média de esquerda, estabelece limitação à participação dessa juventude , representada por suas organizações. Isso introduz, já desde o início, um valor desorganizativo ao processo. Os estudantes estavam na manifestação, mas não os diretórios e centros acadêmicos [12].

No interior do movimento, a predominância da oposição de esquerda permitiu às vezes vislumbrar ações contra algumas correntes adversas, antes mesmo que o anti-partidismo e a ação coordenada da direita contra toda a esquerda se fizessem patentes. A verdade é  que a vitória da direita aconteceu nas condiçõespropiciadas por algumas, estimuladas por outras e combatidas por poucas forças de esquerda.

Como houve aqui em SP aumento também das tarifas do metrô, de responsabilidade do governo do PSDB, Alckmin lançou a repressão contra as manifestações, acompanhado pelos cães de guarda da mídia. Rapidamente, toda a oposição de esquerda, e mesmo algumas forças de esquerda que não desfilam na oposição, foram se somando.

As escaramuças perduraram até a quinta-feira sangrenta, dia 13 de junho, quando os cachorros-loucos da PM, sob ordens do secretário Fernando Grella (que justificou suas atitudes, num primeiro momento, após a manifestação), não selecionaram alvos numa repressão extremamente horizontalizada e extremamente violenta que alcançou parte da imprensa.

Essa repressão foi denunciada pela mídia mercê  de terem sido vitimados alguns de seus funcionários, mas foi principalmente divulgada nos meios cibernéticos, incidindo o fato de que a tecnologia disponível põe hoje ao alcance de 95% das pessoas uma câmara fotográfica e de vídeo no bojo do obrigatório telefone celular. Resultado: o massacre foi amplamente documentado.

Feita a documentação, outro fator tecnológico – a existência das redes sociais – permitiu a divulgação da captura de uma realidade que se desconstrói por suas próprias imagens, o que resultou na massificação da informação sobre as manifestações pela internet, assim como pela própria grande mídia que não podia seguir escondendo o que a web escancarava, sob pena de se ver desmoralizada.

As manifestações em curso –  O Salto para a Individualidade – Hegemonia da Direita.

E se deu, na manifestação seguinte, uma incorporação massiva da juventude de classe média, uma incorporação massiva anti-lulista, mesmo porque diminuiu o risco da repressão, com o recuo de Alckmin e a retirada da PM.

De qualquer forma, temos como evidente que essa incorporação foi, concretamente, expressão da juventude de classe média tradicional, sendo raras as participações tanto de pessoas na faixa de mais de 40 anos, como de provenientes das camadas de mais baixa renda [13]. Isso não desmerece, é sempre importante ressaltar, o fato de que a demanda inicial atendia interesses desta última faixa social, localizada na base da pirâmide. Mas, não pode haver dúvida de que a ampla massa que se incorpora depois da quinta-feira sangrenta foi o outro setor – majoritário – da classe média anti-lulista.

O que levou à sua incorporação? A leitura de reportagens e entrevistas não conduz a mais do que generalidades e “impressões”: “temos que nos manifestar”, “não dá mais para ficar calado”. E a uma pletora de análises que partem sempre da dificuldade de apreender as motivações quando não são, elas próprias tentativas de vender novas motivações.

Podemos também adiantar aqui algumas “impressões”, ainda sem suficientes elementos concretos para embasá-las.

A ausência de motivação consciente para a incorporação

De início, a ausência de motivação clara, somada ao fato de se tratar da classe média já é um indicativo importante. A classe média, tendo abandonado o PT e se passado para a oposição – seja de esquerda, seja de direita –, como mostra SINGER, demonstrou uma incapacidade de determinar suas próprias demandas, limitando-se a expressar “valores” genéricos que defende ou foi levada a defender.

De uma classe média desorganizada, mas sob a influência/hegemonia de linhas políticas da direita que, em muitos casos, incorporou palavras de ordem da oposição de esquerda, o que se tem nas ruas é um amálgama mal construído de boas intenções e generalidades: defesa do meio ambiente, contra as obras da copa e repúdio à corrupção, feitas aquelas nos moldes do que preconiza a igreja católica e os movimentos culturalistas e de direitos humanos, e feita esta nos moldes do que defende o PSDB, uma visão da corrupção em que não aparecem os empresários corruptores [14].

Essa dificuldade de expressar demandas se somou (ou surgiu) do fato de que a oposição partidária ao lulismo se viu sem plataforma para apresentar à sociedade que não fosse a da “luta contra a corrupção”, uma possível motivadora, aliás, do rompimento da classe média com o PT em 2005 [15].

Solidariedade como motivadora da incorporação

Por outro lado, parece evidente que as cenas de combate e cerco, de tentativas de aniquilamento e de retiradas da quinta-feira sangrenta, motivaram solidariedade mas mesmo essa solidariedade não ultrapassou, no fundamental, o âmbito da classe média.

A expressão “no fundamental” resulta aí de dúvidas sobre se a participação na pesquisa realizada pelo jornalista Datena em seu programa de televisão pode ter sido expressão da base da pirâmide. A dúvida vem da impressão – sem qualquer suporte em dados – de que seja esse seu público.

Por outro lado, dado o momento em que vai ao ar o programa, certamente boa parte, senão a maioria dos trabalhadores dessa faixa não estaria em casa nem, menos ainda, frente à TV ou pensaria em gastar uma ligação telefônica para dar essa opinião. De qualquer modo, ainda que se possa ter aquela participação nas pesquisas como manifestação da base da pirâmide, não foi além do possível clique nos botões de um telefone, já que a participação concreta dos mais pobres nas manifestações não foi percebida [16].

É importante verificar que essa solidariedade foi desencadeada diante da repressão. Mas também vale a pena indagar por que uma repressão tão violenta foi capaz de fazer surgir um espírito de solidariedade em lugar do temor de participação que a polícia e o governo esperavam [17] [18].

As imagens constroem a realidade – Perda de identidade da manifestação – O Espetáculo

Põe-se em consideração a possibilidade de que essa solidariedade tenha decorrido de uma identificação de classe; não com a classe cuja demanda motivava as manifestações, mas com a classe que estava, concretamente, sendo agredida.

Mas, sendo fruto de uma identidade de classe, foi também fruto de uma perda de identidade política da manifestação.

As redes sociais e a mídia trouxeram as imagens da repressão na quinta-feira sangrenta. Mas as exibições de filmes e fotografias, em lugar de desvendar uma realidade, mascararam-na. Mais do que isso. As imagens não apenas mascararraam a realidade, como criam uma nova realidade.

As imagens mostravam pessoas fardadas atacando pessoas. Os atacantes eram reduzidos a PMs, força do Estado. Os atacados eram reduzidos a manifestantes. Mas as imagens não mostravam as condicionantes políticas do Estado que atacava as pessoas, nem das pessoas que eram atacadas. Aqueles podiam ser o governo federal, estadual ou municipal, podiam ser expressão do PT, do PSDB ou qualquer outro; do neoliberalismo, do neodesenvolvimentismo, da luta pelo socialismo. Estes não eram militantes de esquerda, de tal ou qual partido, ou movimento social. Eram apenas pessoas que estavam na manifestação.

O desaparecimento da condição militante de esquerda dos manifestantes constituiu um convite maior à incorporação de qualquer jovem de classe média. A participação já não tinha outros limites que a própria disposição de estar lá. Não era mais uma manifestação de esquerda, que se limitava pela concordância com uma palavra de ordem. Era uma manifestação para qualquer pessoa, com qualquer palavra de ordem [19]. Não era mais pelos 20 centavos! Era por “direitos’!

E era pelo espetáculo!

Não sendo uma força organizada cada um ficava responsável por definir o que o levava à manifestação. E cada um sabia que iria possivelmente ser filmado por um dentre os milhares de celulares e câmaras nas ruas. E iria para a internet, no facebook ou num blog, ou num site ou no instagram. E poderia ir para os jornais ou para os sites dos jornais. E para a televisão. Cada um que cuidasse, portanto, do modo como iria aparecer, como iria ser seu espetáculo.

As participações se tornam, portanto, cada vez mais individuais, mesmo quando as pessoas agem sob a hegemonia da extrema direita. Essa hegemonia estabelece um padrão de temas: corrupção; não é por 20 centavos, é por direitos; contra a PEC 37; contra as obras da copa; pela redução da maioridade penal; o gigante acordou. Mas é a criatividade individual que fará a diferença e mobilizará outros, porque abre a disputa para que cada qual demonstre suas próprias qualidades de redator publicitário. Se não era mais pelos 20 centavos, se era por direitos, era pelos direitos que cada um julgava importantes.

E que não viesse, o MPL ou quem quer que fosse dizer que a manifestação era contra a tarifa. Afinal, se não se aceitava que o Estado pudesse pôr limites à manifestação, por que se havia de permitir que outros manifestantes pusessem?

E, mais, por que se havia de permitir que fossem postos limites por pessoas que eram de esquerda e tinham bandeiras vermelhas, como vermelhas eram as bandeiras do PT, o mesmo partido de que era o Prefeito que decretara o aumento? E a Presidente, que fora eleita indicada pelo PT e por Lula, que indicara esse prefeito? E que era corrupto e mensaleiro, como o diziam a mídia e a oposição de esquerda e a internet e os blogueiros e todo mundo sabia?

E como somente esses partidos de esquerda é  que estavam presentes na manifestação, eram estes que tinham que ser postos para fora. Donde a palavra de ordem de “sem partidos”  assume o significado de “sem partidos de esquerda”, já que o maior partido da oposição, a mídia, estava ali presente.

O Antipartidarismo

Nas manifestações convocadas pelo MPL conviveram o apartidarismo e autonomismo desse movimento e a presença e atuação dos partidos da oposição de esquerda.

A desconsideração do caráter de classe dos manifestantes iniciais e mesmo avaliação equivocada das tendências de classes e setores de classes na atual conjuntura, levaram o esquerdismo a acreditar que seu inimigo principal naquele momento inicial seriam os partidos e forças que de algum modo apoiavam ou se relacionavam com o governo.

Conduzidos por uma visão primária e reducionista da política, que rejeita e não consegue conviver com a contradição, a oposição de esquerda próxima ao MPL dedicou-se, inicialmente, a promover a expulsão de dentre os manifestantes, das correntes vinculadas ao governo, incapazes de uma lógica da luta de classes que os fizesse entender que atrair setores dos partidos governistas para a luta contra a tarifa adquiria primordialidade porque não apenas acrescia a força dos manifestantes, como gerava desentendimentos na base governista [20].

Viam, os partidos da oposição de esquerda, com isso, a possibilidade de se tornarem os condutores de um processo que, sem que entendessem bem o porquê, crescia exponencialmente, sem a presença das organizações políticas. Vangloriavam-se de suas atitudes divisionistas e plantavam, com isso, a semente do antipartidarismo num terreno que já era fertilizado pelo caráter individualista da classe média, pelo caráter autonomista do MPL e pela desconstrução do caráter de esquerda pela imagética das manifestações e da repressão a elas.

A primeira manifestação após a quinta-feira sangrenta (a quinta da série atual de protestos) viu, no Largo da Batata, um início de choques entre os Partidos e a individualidade que acorreu às ruas. Mas foi na sexta manifestação que se consumaram os ataques contra os Partidos presentes, com queimas de bandeiras de ataques ao PCR, PSTU e PSOL.

O pensamento hegemônico de direita já conduzia nesse sentido. Jabores e marcelos rezendes, depois de combaterem as manifestações e terem corrigido a rota, passaram a centrar fogo na necessidade de rejeição aos partidos, chamados de oportunistas e acusados de somente terem se somado os protestos após o seu crescimento.

Mas, se esse antipartidarismo partia do individualismo, o pensamento hegemônico foi fortalecido pela ação da própria oposição de esquerda. E, finalmente, veio a contar com a direção organizada de grupos de extrema-direita, skinheads e quetais.

Participação da base da pirâmide

Não obtivemos elementos para mensurar possível participação de trabalhadores da base da pirâmide social nessas manifestações. Certo é que houve esforços descoordenados de convocação de protestos na periferia, pelo MTST, Periferia Ativa e alguns outros inindentificáveis. Os números apresentados pela mídia foram, em geral, extremamente reduzidos. Mas houve algumas exceções. De qualquer modo, a constatação visual indicou que as manifestações reuniam jovens brancos, de classe-média, sendo a presença de pessoas de mais idade ou negros uma absoluta exceção [21].

Já se estudou e apresentou que os grupos de skinheads são de extração de entre os de mais baixa renda, expressão de uma conflitiva oposição ao conflito que a esquerda organiza. Sua presença no meio da manifestação de classe média perde identidade quanto à origem social, mas a ganha quanto à ideologia subjacente em ambos, variando naquilo que uns privilegiam a individualidade e outros propõem ação organizada em defesa das propostas radicais fascistas.

Violência

Não temos como excluir a possibilidade de que a violência tenha sido empregada como arma de convencimento pelo exemplo, ou como atividades de provocação para autorizar a repressão policial. Mas não temos, também, como excluir a possibilidade da atitude individual desorganizada, motivada pela vontade vista como necessidade de ocupar um lugar na história, e carente de orientações e limites que a organização proporciona.

Mesmo no caso da mais completa identificação de um indivíduo participante do ataque à Prefeitura, filho de um pequeno empresário, embora suas características físicas pudessem sugerir, não houve outros que permitissem comprovar se seria ele integrante de organizações para-militares fascistas.

Pelo menos num caso, exatamente esse ocorrido no dia da sexta manifestação, em 18 de junho, a violência esteve vinculada aos saques, com aspectos também demonstrativos de desorganização, quando moradores de rua levaram para suas barracas de cobertores TVs de plasma que não apenas não poderiam utilizar, como nem poderiam carregar ou exibir para a venda.

O fim das convocações do MPL e possíveis tendências em SP

O fim das convocações do MPL em SP correspondeu não apenas ao reconhecimento da vitória alcançada em termos específicos da demanda inicial, mas da necessidade de repensar os passos seguintes, diante da nova conjuntura criada.

Esse fato não impedirá, como não impediu, novas concentrações. Mas a desorganização das convocações pela web tende a fazê-las perder massificação. Diversas manifestações aconteceram na noite de sexta-feira, 21, e no sábado, 22 de junho. Na Avenida Paulista, sexta-feira à noite, três manifestações perambularam com propostas distintas e, sem elemento aglutinador, não conversavam entre si: a do ato médico, da cura gay e uma da Zona Leste Somos Nós. Outras em rodovias e no interior também aconteceram, mas a tendência é de que, salvo se se afirmar uma outra organização com legitimidade para convoca-las, as manifestações tendem a diminuir e refluir.

Se o mesmo passará em outras cidades e Estados, parece cedo para afirmar.

Não é possível ainda saber o impacto de novas intervenções.

O fascismo interessa ao capital?

A proposição de petição pública no AVAAZ, capitaneada por Pedro Abramovay, pedindo o impeachment de Dilma, pode ou não contribuir para formar um quadro golpista [22].

Quanto à avaliação das possibilidades de desenvolvimentos golpistas, ademais do que já se disse, acrescentamos que é possível perceber também um certo desarranjo entre as forças organizadas da direita. Se alguns editoriais do Estado de S.Paulo e da Folha de S.Paulo sugeriram convocações golpistas, pode-se perceber, também sinais de medo da violência e de perda de se controle. O acréscimo de noticiário sobre os conflitos e vandalismo se vê também nos meios televisivos.

Por outro lado, não parece que para o Capital a derrubada do governo fosse uma alternativa desejável, uma vez que sairia de um modelo que lhe permite a garantia de todos os lucros e seu crescimento, em troca do ingresso numa situação de grande instabilidade.

Donde podemos resumir afirmando que as manifestações mostraram que a disposição oposicionista da classe média aprofunda-se para a direita, mas que essa mesma classe média se expressa desorganizadamente. Havendo, assim, um caldo de cultura para forças golpistas, esse mesmo caldo de cultura traz em si elementos que dificultam uma ação organizada nesse sentido.

Conclusão

Na década de 50 e ainda antes de 1964, a esquerda brasileira reconstituiu um sebastianismo próprio em torno da imagem do conflito entre pobres e ricos, vislumbrando o dia em que os de baixo da ordem social, localizados nas alturas geográficas do Rio de Janeiro, fariam o assalto ao poder: “Mas, olhem bem, vocês: quando derem vez ao morro, toda cidade vai cantar!”.

Ainda que as análises mais consistentes apontem a inapetência do subproletariado para o conflito social, a possibilidade de vê-lo convertido em proletariado, após 10 anos de lulismo pode, é verdade, permitir enxergá-lo na Avenida Paulista. Trata-se, porém, de saber se naquele espaço ele estaria se vendo ao lado ou contra essa classe média que por ora dali se adonou.

Para a esquerda como para a direita, a visão do subproletariado como um novo proletariado pode povoar sonhos e pesadelos.

BIBLIOGRAFIA

DATAFOLHA. Maioria dos manifestantes em SP usa transporte público, diz Datafolha. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1299800-onibus-e-metro-sao-os-transportes-mais-utilizados-por-manifestantes-em-sp.shtml, acesso em 23 de junho de 2013.

POCHMANN, Márcio. Nova classe média? O trabalho na base da pirâmide social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2012.

SINGER, André Vitor. Os sentidos do Lulismo. Reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SINGER, André Vitor. Esquerda ou Direita? Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/andresinger/2013/06/1299454-esquerda-ou-direita.shtml, acesso em 23 de junho de 2013.

[1] A definição de esquerda e direita é sempre assunto merecedor de exames aprofundados. Dadas as condições deste trabalho – limite de espaço, de tempo, e o fato de estar redigindo “no meio da floresta” -, optamos por seguir a lição de BOBBIO e valer-nos da adesão à busca da realização da igualdade como parâmetro definidor da diferença entre esquerda e direita, aquela com sinal positivo, esta com sinal negativo.

[2] Nota da CNBB fala: “declaramos nossa solidariedade e apoio às manifestações, desde que pacíficas, que têm levado às ruas gente de todas as idades, sobretudo os jovens. Trata-se de um fenômeno que envolve o povo brasileiro e o desperta para uma nova consciência”; Nota do PCB: Por todo o país, centenas de milhares de pessoas, em sua maioria jovens, vêm ocupando as ruas…”; Nota da Refundação Comunista: “Todavia, a juventude, os trabalhadores e todo o povo brasileiro se mostram indignados e demonstram extraordinária capacidade combativa.”; Carta Aberta dos Movimentos Sociais: “As recentes mobilizações são protagonizadas por um amplo leque da juventude que participa pela primeira vez de mobilizações”.

[3] O trabalho de SINGER está voltado primordialmente para análise do comportamento eleitoral. Desse modo, valer-nos dele para análise de manifestações de massas em situações não eleitorais pode, evidentemente, ser inadequado. Julgamos, porém, que seu aporte sobre o conhecimento e posicionamentos do subproletariado e da classe média ajudam a entender como participam (ou não) do atual processo.

[4] Até 5 sm. de renda familiar, grosso modo, SINGER (2012, P. 42)

[5] Uma dificuldade para o trabalho com dados de SINGER e POCHMANN reside no fato de aquele valer-se de renda familiar, e este de renda individual. Partindo de uma abordagem que considere a renda familiar constituída, em princípio, pela contribuição de dois trabalhadores, teríamos de

[6] SOUZA, Jessé. Os batalhadores brasileiros, p. 23, apud SINGER 2012

[7] Anote-se, para o exame da atual insurreição da classe média, uma medida mais de interesse da base da pirâmide, a extensão às empregadas domésticas dos direitos trabalhistas reconhecidos aos demais trabalhadores.

[8] Esses partidos embora adotando ou se dispondo a adotar uma teoria que os põe na defesa dos interesses do proletariado, estão fudamentalmente compostos de militantes de classe média. Têm, assim, a cabeça nas estrelas enquanto os pés afundam na lama. Essa circunstância gera seduções e descaminhos que no mor das vezes não são percebidos e são, pelo contrário, justificados como a mais pura aplicação da teoria. O afastamento da análise da situação concreta, da formação político-econômica-social em proveito do modo de produção parte disso, como as tendências ao esquerdismo.

[9] Possivelmente tenha sido o MST o único movimento social a se diferenciar , aqui, por não assumir uma condição de movimento identitário, nem reduzir suas demandas a similares de programas lulistas. Talvez tenha sido ele, por isso, o movimento social mais golpeado pelo lulismo com a rejeição de suas demandas.

[10] Procuro aqui diferenciar movimentos sociais, aqueles cujas demandas têm, de algum modo, relação com a situação social das pessoas, como movimentos de sem-terra e sem-teto, daqueles movimentos que se destinam a afirmar ou proteger a identidade das pessoas, como movimentos feministas, pelo reconhecimento e proteção da diversidade sexual, de indígenas e quilombolas.

[11] Como outros exemplos, podemos lembrar as bandeiras por redução da maioridade penal, exigência de maior atividade policial, por exemplo.

[12] Um fato que não restou mensurado é o da participação dos estudantes universitários prounistas.

[13] Indicativo disso se tem em pesquisa do Datafolha publica na Folha de S. Paulo do dia 23 de junho de 2012 em que, ao indagar-se sobre a continuidade das manifestações na sexta-feira, dia 21, 66% se pronunciaram pela continuidade dos protestos e 34% contra: “O apoio está entre os mais escolarizados, aqueles com renda mensal de cinco a dez salários mínimos e entre os mais ricos. Contra estão principalmente os mais velhos e os que têm renda até dois salários mínimos”. Folha de S. Paulo, 23 de junho de 2013, Cotidiano 1, p.1.

Esses resultados constituem também uma confirmação mais da conclusão de SINGER sobre a rejeição do conflito pelo setor de mais baixa renda da sociedade. Quanto a essas manifestações especificamente, porém, SINGER vê nelas a presença do novo proletariado, ex-integrantes do sub-proletariado favorecidos com uma ascensão social: “Se o estopim foi aceso pela classe média, o novo proletariado, forjado na década do lulismo, entrou nas avenidas, dando um colorido inédito às marchas reivindicatórias.” (SINGER (2013-A).

Mas pesquisa realizada tão somente entre participantes da maior das manifestações havidas em São Paulo, a do dia 20 de junho, após a redução da tarifa do transporte público não permite localizar esse novo proletariado. Ouvidos pelo Datafolha 551 entrevistados, a pesquisa com margem de erro de 4% indicou que a maioria dos manifestantes tinha entre 21 e 35 anos (63%), e ensino superior (78%).

[14] Perceba-se que no caso tornado pela mídia emblemático da corrupção no Brasil – o do mensalão -, não há a figura do corruptor que provê o dinheiro. Tratar-se-ia de caso de corrupção em que membros de um partido, com dinheiro do partido, corromperiam membros do próprio partido e de outros para votar matérias de interesse de seus partidos.

[15] Lembremos que a luta contra a corrupção já  era bandeira da classe média ao tempo da UDN.

[16] Com a possível exceção dos saques que teriam envolvido moradores de rua, durante a manifestação da terça-feira, 18/06.

[17] Considero a hipótese, dado o fato da incorporação do setor jovem dessa classe média que também tenha ocorrido a identificação da abertura de uma janela histórica para a participação, para mudar o Brasil. Esses jovens lêem e ouvem falar das lutas de seus avós contra a ditadura, de seus pais, entre os caras-pintadas. Podem ter visto agora a oportunidade e ouvido o chamado para ocupar seu lugar nas ruas. Que essa participação fosse desorganizada e individual, pode resultar do fato de que a janela que se abre se abre na tela do computador, que o chamado que se ouve não permite a organização.

[18] Um elemento episódico: Em 1968, milhares de pessoas foram às ruas em manifestações contra a ditadura. Quando, em 1992, desatou-se o processo do impeachment de Collor, a TV Globo levava ao ar, com grande sucesso, a série “Anos Rebeldes”, que glamourizava a luta contra a ditadura, inclusive a Passeata dos Cem Mil. Agora, coincidentemente, o canal Viva, dedicado a reapresentações de programas de sucesso da Globo, exibia (segue exibindo) a mesma série Anos Rebeldes. Teria esse fato ajudado a motivar os jovens de classe média a buscar “um lugar na história”?

[19] Diferente disso pensa SINGER (2013-A), para quem uma ausência de direção unificada permitiu a diversidade de ideologias opostas nas manifestações: “O saudável ímpeto antivertical tem como contrapartida a falta de direção unificada. Ao não se delimitar com clareza o que cabia e o que não cabia nas manifestações, elas começaram a agregar um pouco de tudo, até mesmo ideologias opostas, como ficou claro na briga entre direita e esquerda que marcou a comemoração da vitória na av. Paulista anteontem.”

[20] Somente na convocatória para a 7ª manifestação, a última proposta pelo MPL, José Maria de Almeida, do PSTU, marcou posição nesse sentido: “Ainda ontem participei de uma reunião onde ouvi críticas à possibilidade de a juventude do PT participar das manifestações com suas bandeiras. Penso o contrário. Que bom que a juventude do PT quer somar-se a luta pela redução da tarifa, agora, da redução do preço da passagem e pelas demais demandas do povo que está nas ruas. Alguns podem dizer que trata-se de uma contradição, pois o governo é do PT. Eu diria que é uma boa contradição. Quanto mais gente do PT estiver nas ruas lutando, menos força terão os governo do PT para fazer o que estão fazendo contra o povo, e isso, de alguma forma vai levar a uma superação desta contradição. Que venham então as bandeiras do PT para somar-se à  luta pelas reivindicações dos trabalhadores e da juventude brasileira.”

[21] Retomem-se aqui os dados fornecidos pelas pesquisas do Datafolha, apontando a participação amplamente majoritária –  quase exclusiva – da classe média tradicional.

[22] Há tempos vimos sendo advertidos sobre denúncias que apontam o AVAAZ como uma organização a serviço da CIA, que já promoveu o apoio à intervenção na Líbia e atualmente na Síria, e agora no Brasil.

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