Em menos de um ano, Alagoas registra 109 menores desaparecidos no Estado

Nomes de crianças e jovens que sumiram de casa estão registrados no banco de dados da Polícia

 

Olívia de Cássia
23 Setembro de 2013

Ter alguém desaparecido na família causa uma dor que não tem dimensão: é difícil explicar, como dizem as mães, e muito mais quando se trata de crianças e adolescentes. Segundo estimativas do Governo Federal, 40 mil menores de idade desaparecem todo ano no país, isso em dados oficiais: o número pode ser muito maior porque não há registros de todos os casos, por falta de informação da população.

Foto: Sandro Lima

Em Alagoas, o Sistema de Informação da Polícia Civil, a pedido da reportagem daTribuna Independente, fez um levantamento das crianças e adolescentes que estão desaparecidos em todo o Estado e o resultado surpreende: este ano, até o dia quatro de setembro, estavam sumidas de casa 21 crianças e 88 adolescentes.

Em Maceió, a realidade, segundo o delegado Medson Maia, da Gerência de Estatística e Análise Criminal, é a seguinte: também até o dia quatro de setembro, 14 crianças e 53 adolescentes estavam desaparecidos. Os nomes e as fotos dos menores, porém, não podem ser divulgados porque não há autorização por escrito das famílias, segundo justifica a Polícia Civil.

Todos os meses, novos casos são registrados pela Polícia Civil, a exemplo do desaparecimento do menino Davi Martins, 12 anos, que sofre de esquizofrenia. Ele já fugiu de casa mais de vinte vezes e, novamente, na semana passada.

A mãe dele, a cabeleireira Patrícia Martins, vive um drama peculiar. A cada vez que o filho some, no conjunto Freitas Neto, no Benedito Bentes, em Maceió, além de prestar queixa na Delegacia dos Crimes contra Criança e Adolescente, ela faz uma peregrinação pela cidade em busca da criança.

Patrícia conta que os medicamentos usados para tratar Davi não têm surtido o efeito esperado e, sem controle do comportamento do garoto, ela já chegou a acorrentá-lo em casa. Davi continua sendo procurado pela família e pela polícia.

Famílias vivem drama à espera de um desfecho

Dona Maria Cícera da Silva, mãe adotiva de Adeilton José da Silva, 13 anos, residente na Rua Evilásio Torres, em Viçosa, deixou a estatística alagoana de pessoas com parentes desaparecidos após vivenciar dois dias de angústia. Adeilton sumiu no dia 12 de agosto e foi encontrado por moradores do município no dia 14. Foi a segunda fuga do menino, segundo dona Maria Cícera, que se diz aliviada e, ao mesmo tempo, preocupada com o comportamento de Adeilton.

Ela conta que o adolescente fugiu porque não quer mais ir para escola. “O diretor da escola deu uns conselhos para Adeilton e ele não quis ouvir”. Segundo dona Maria Cícera, o garoto foi encontrado escondido num beco de uma casa vizinha à escola, foi levado para a delegacia regional, acompanhado do Conselho Tutelar e disse lá que não quer mais estudar.

Para tentar driblar a situação, a família vai tentar encaixá-lo em outra escola de Viçosa. O Conselho Tutelar do município e uma psicóloga da instituição vão fazer o acompanhamento de Adeilton nos próximos meses. “Os meninos de hoje não são como os de antigamente; só querem luxar, são desobedientes. A gente faz de tudo por eles. Ele tem um pai alcoólatra que vive caído pelas ruas. Já peguei vários sobrinhos e outras crianças para criar e eles não me deram tanto trabalho quanto ele”, diz.

TRISTE FIM

Dona Maria de Fátima Mota, avó do menino Felipe Vicente da Silva, dois anos, não teve a mesma sorte de dona Cícera e sabe bem o que é o desaparecimento de uma criança na família: dias de angústia e muito sofrimento. Felipe Vicente desapareceu da casa de dona Fátima, no Conjunto Cleto Marques Luz, no bairro do Tabuleiro do Martins quando ficou sozinho na calçada por alguns minutos. Ele foi encontrado morto no dia 29 de junho, 13 dias após ter sido sequestrado. A polícia diz ter suspeitos, mas até agora não houve prisão.

Conflitos familiares incentivam fugas

Fuga por conflitos familiares, sequestros para exploração sexual ou para tráfico internacional de pessoas e órgãos, saída de casa para ficar com o namorado são alguns dos motivos apontados pelas autoridades para tantos desaparecimentos de crianças e adolescentes todos os anos em Alagoas.

Em Maceió, a delegada Bárbara Arraes, titular da Delegacia dos Crimes contra Criança e Adolescente observa que a maioria dos desaparecimentos na capital alagoana é por fuga de casa. A orientação que é dada para as famílias é fazer a comunicação do fato à polícia o mais rápido possível. “Antigamente tinha que esperar um prazo de 24 horas para comunicar o desaparecimento; hoje não existe qualquer prazo, até porque a busca deve ser imediata, de acordo com a lei”, observa.

Bárbara Arraes ressalta que o quanto antes a notícia do desaparecimento for comunicada, mais chances há de a polícia localizar a criança. Aliado a isso, ela observa que é feito um Boletim de Ocorrência na delegacia e a impressão de cartazes com as fotos das crianças procuradas, para serem exibidas por meio de parceria com a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) nos ônibus da capital.

“A gente pede que a família entregue a foto para fazer os cartazes e que procure os meios de comunicação, para divulgar o desaparecimento, mas nem todo mundo quer expor as fotos dos filhos na mídia. Também orientamos que levem as fotos para a televisão para que mais pessoas fiquem sabendo, pois a ajuda dos meios de comunicação é fundamental”, destaca.

Pais desatentos facilitam sumiços

A questão da droga também é um dos motivos das fugas de adolescentes, segundo a delegada Bárbara Arraes, titular da Delegacia dos Crimes contra Criança e Adolescente. E por conta disso ela aconselha que os pais acompanhem a rotina dos filhos. “Também existe muito hoje adolescentes que estão começando a vida sexual cedo e saem de casa para ficar com seus namorados. Antigamente esse tipo de crime era rapto”.

“É importante que a família comunique o mais rápido possível, mas infelizmente tem família que, quando vem procurar a criança, já passou muito tempo e aí fica difícil. Nós recomendamos aos pais e familiares que conheçam os hábitos dos seus filhos, que observem em que site eles estão entrando, com quem estão se relacionando ou saindo, para evitar a questão dos entorpecentes, e ainda, quem são os amigos, se estão frequentando as aulas, entre outras orientações”, pontua.

A delegada explica que tem casos de crianças que dizem em casa que vão para a escola e ‘matam’ a aula para fazer outras atividades. “Vou contar um caso recente de uma menina que a família pensava que estivesse frequentando as aulas e ela fazia mais de um mês que tinha sido suspensa na escola e não contou aos pais. Ela desapareceu e quando a família foi na escola descobriu que ela tinha sido suspensa. Depois foi encontrada”, conta.

As famílias de crianças desaparecidas em Maceió, segundo Bárbara Arraes, são encaminhadas para o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), unidade pública e estatal, que oferta serviços especializados e continuados a famílias e indivíduos em situação de ameaça ou violação de direitos (violência física, psicológica, sexual, tráfico de pessoas, cumprimento de medidas socioeducativas em meio aberto, entre outros casos).

 

 

Reprodução Tribuna Hoje.

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