Igreja Católica na ‘bronca’ com a classe política

Dom Antônio Muniz lamenta que políticos não procuram mais a Igreja Católica

 

Erik Maia
09 Setembro de 2013 – 08:12

Esperança, esse é o sentimento que o arcebispo de Maceió, Dom Antônio Muniz, tem em relação a eleição do próximo ano, mas como o pastor da Igreja Católica enxerga a relação entre a Igreja e a política, que historicamente sempre estiveram próximas? Na entrevista a seguir, ele fala sobre a relação que os políticos mantêm com a maior e mais velha instituição do mundo. O representante de Roma ainda cobra do prefeito de Maceió, Rui Palmeira (PSDB), o cumprimento dos dez compromissos assumidos, durante a campanha. “Queremos políticas públicas”.

 

Dom Antônio Muniz exige a efetivação de políticas públicas e o cumprimento de promessas. Foto: Divulgação

 

As palavras do arcebispo entraram em sintonia com o que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) vem pregadndo recentemente. A entidade aliou-se oficialmente, esta semana, à Ordems dos Advogados do Brasil (OAB) e mais 12 entidadaes por uma reforma política – e eleitoral – real, sem subterfúgios. Definitivamente, a Igreja está na bronca com a classe política.

Tribuna Independente – O Papa Francisco veio ao Brasil e deixou vários recados, muitos deles direcionados aos políticos, qual mensagem destacar?

Dom Antônio Muniz – Responsabilidade pública, menos corrupção, menos engodo e engano do povo brasileiro. Isso ficou bem claro.

T.I. – Durante muito tempo a Igreja teve muita influência na política. Os políticos ainda a buscam?

Dom Antônio Muniz – Não, pelo contrário, ela é rejeitada. Os políticos nos rejeitam. Eles nos buscam apenas quando tem interesses, mas de um modo particular, nos últimos anos, eles têm refutado a Igreja, porque nós temos desenvolvido uma política, entre aspas, diferente. Eu atribuo isso a uma consciência de dois níveis. Uma consciência religiosa e outra política diferenciada.

T.I. – A consciência política dos católicos, de escolher os candidatos por uma proposta política bem definida, de acordo com o pensamento da Igreja, é uma coisa que vem crescendo ou diminuindo?

Dom Antônio Muniz – A consciência política é algo que toca a cidadania, então se a pessoa, desde os primeiros períodos da educação, é educado em cima de uma concepção política depositária, interesseira, ele vai crescer nisto. É como os filhos dos políticos. Os filhos de políticos, que se tornam políticos, se tornam iguais aos pais.

T.I. – É uma questão de berço?

Dom Antônio Muniz – Não! É uma questão de educação. Se a pessoa entra numa escola, mas às vezes nem existe escola, a escola é ruim, péssima, nós vivemos em um estado de escola que é deplorável, então, a pessoa não cresce tendo uma consciência crítica sobre a realidade, tendo uma consciência crítica sobre seus deveres, consciência ética…. Ou seja, roubar significa continuar o esquema dos pais. Desviar as coisas públicas é quase como uma coisa que entra no sangue.

T.I. – Como está o cenário político de hoje?

Dom Antônio Muniz – Péssimo!

T.I. – O que falta para melhorar?

Dom Antônio Muniz – Tudo. Mas esse ‘péssimo’ é porque nossos políticos só estão presentes em campanhas eleitorais. Provem-me o contrário. Onde está o prefeito de Maceió? Onde está o governador do Estado? Onde estão os vereadores? Onde estão os deputados? Uma festa como essa que estamos celebrando [a entrevista foi concedida na semana dos festejos de Nossa Senhora dos Prazeres, na Catedral Metropolitana de Maceió], nove dias, a fluência é imensa. São milhares de pessoas que passam por aqui, desde as 6h. Não aparece ninguém [político] aqui para fazer uma oração… Só aparece no tempo de campanha política? Qual é a palavra que eu posso dizer a não ser ‘péssimo’? Se eles estiverem presentes, eu ainda posso conversar e provocar.

T.I. – O senhor é procurado por políticos?

Dom Antônio Muniz – Olhe, no início sim, hoje mais não. Eles não me procuram mais. Nem aqueles que se dizem oposição, aqueles que se dizem de esquerda, não digo nem de esquerda, mas aqueles que tem um ideal mais junto do povo. Cada um fica apenas no cultivo do seu feudo, que antigamente se chamava curral político e agora bairro, e só. Eles montam um discurso, que vai defender os espaços conquistados, esses populistas que vivem só encastelados nos seus bairros, os populistas da esquerda, vivem da manutenção de um grupinho de fãs, que cultivam ideias idílicas da sociedade.

T.I. – O arcebispo não poderia ir em busca de uma audiência com o prefeito para resolver problemas?

Dom Antônio Muniz – O prefeito não esteve em minha casa com os demais candidatos? Ele não assinou um programa que incluía isto que eu estou dizendo? O que é que precisa mais? Abri a minha casa, oferecei um jantar, convidei a imprensa, convidei todos os candidatos a vereador e a prefeito [em 2012]. Dos candidatos a prefeito não foi apenas um. Rui estava lá, com muita honra, e foi o primeiro a assinar os dez pontos de Maceió, onde coloquei os dez mandamentos de Maceió.

T.I. – Estamos as vésperas de uma campanha política, como a Igreja se mobilizará?

Dom Antônio Muniz – A Igreja continuará inflexível, fazendo o trabalho que já está fazendo, criando e ampliando os trabalhos que temos. Estou criando, até o final do ano, uma casa bonita para receber as crianças portadoras de câncer, que venham do interior. Dando a resposta do que a Diocese poderá fazer em relação as suas paróquias. Isso será no Vergel, ali na Casa do Pobre. De um lado os velhinhos, do outro as crianças, isso é política pública. Isso é coisa nossa, mas eu já venho falando, falando e falando, mas não aparece ninguém de Câmara dos Vereadores, da Assembleia, do Estado… e isso é fundamental. Isso é saúde pública.

 

Reprodução Tribuna Hoje.

 

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