Leia excelente artigo sobre a polêmica da contratação de médicos estrangeiros no Brasil

Autor do artigo: Luiz Muller

A MEDICINA LÁ  E CÁ:

A saúde no Brasil tem sido tema de grandes debates nas últimas semanas, provocados tanto pelas manifestações das ruas, que exigem melhoras e mais investimentos na área, quanto pelas propostas recentes do governo em trazer médicos de outros países para trabalhar em regiões mais carentes.

Essas propostas, assim como a obrigação dos estudantes de universidades públicas em cumprir dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS), tem sido alvo de fortes críticas das associações de médicos, que afirmam que essas não seriam as soluções para os problemas.

Lá em Cuba:

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O curso de medicina cubano dura seis anos. Para estudantes de outros países, ele se inicia na Escola Latinoamericana de Medicina, localizada em Havana. Depois de um período inicial de dois anos, os estudantes são enviados para as diversas universidades do país. Augusto e Andreia foram para a universidade da província de Camagüey.

O curso de medicina cubano não se difere muito do brasileiro, do ponto de vista curricular.

“Os dois primeiros anos trabalham com as ciências médicas. Estudamos fisiologia humana, anatomia humana e demais disciplinas referentes à saúde pública com enfoque em prevenção, desde o primeiro ano temos contato com os postos de saúde. Quando somos distribuídos para as universidades, vivenciamos o sistema público de saúde. Comparado com o Brasil, o nível teórico é igual, mas o nível de prática é maior”, relata um estudante brasileiro eu cursa  Medicina em Cuba

“Um estudo do governo federal mostra a compatibilidade curricular dos cursos de medicina de 90% entre Brasil e Cuba. Então, não há grandes diferenças teóricas”, conta a médica brasileira formada na Universidade cubana.

A diferença principal entre os dois cursos está na concepção de medicina e de saúde na formação dos médicos. “O curso brasileiro é voltado para as altas especialidades. Tem essa lógica de que você faz medicina, entra numa residência e se especializa. Já em Cuba o curso se volta à atenção primária de saúde, para entendermos a lógica de prevenção das doenças e o tratamento das enfermidades que as comunidades possam vir a ter”.

Em contrapartida, “saúde” e “medicina” no Brasil são sinônimos de pedidos de exames e tratamento com diversos medicamentos, calcados em sua maioria na alta tecnologia. Com isso, a medicina preventiva fica em segundo plano, alimentando uma indústria baseada na exigência destes procedimentos.

“No Brasil, temos uma limitação na formação do profissional, pois ela é voltada ao modelo hospitalacêntrico, que pensa só na doença e no tratamento. Em Cuba isso já foi superado. Lá eles formam profissionais para tratar e cuidar com qualidade, humanismo e respeito e atenção a cada paciente; aprendemos de verdade a lidar com a saúde do ser humano”, diz uma médica formada em Cuba e atualmente trabalha em um PSF em Campo Grande-MS.

Ela destaca que os médicos formados na ilha são capazes de atender a população sem utilizar somente a alta tecnologia, condição que não necessariamente limita um atendimento com qualidade à população que mais carece. Lembrando que Cuba sofre todo tipo de bloqueio econômico do grande centro do Capitalismo que é o EUA, portanto não se trabalha com grandes recursos tecnológicos e nem possui indústrias farmacêuticas. Mesmo assim, a medicina e a qualidade de saúde dos/das cubanos/as são referências  para o mundo globalizado.

“É mais barato fazer promoção e prevenção de saúde. No entanto, isso rompe com a ditadura do dinheiro. Isso incomoda muito o Capital, pois as grandes indústrias farmacêuticas, os hospitais, os agentes públicos que administram os Estados e Municípios lucram, aguardam o paciente ficar doente para se utilizar do mercado de exames e de medicamentos e redes hospitalares, com visão meramente curativa e mercantilista.”

Essa estrutura fortalece o complexo médico-industrial, que se favorece sempre da doença de  alguém internado ou que precise tomar algum medicamento.

Quem nunca foi a um consultório médico e teve que esperar um pouco porque um “representante” de remédios passou na sua vez para apresentar as novidades farmacêuticas ao seu médico? Um pequeno exemplo do que falamos acima.

“Não se nega, com isto, a necessidade de medicamentos e equipamentos, porque precisamos dar atenção a esse tipo de paciente na fase curativa da doença. Mas não precisamos esperar que todas as pessoas fiquem doentes para começar a trabalhar a questão da saúde”, fala a profissional.

Aqui no Brasil:

O curso de medicina, na sua grande maioria é composto por alunos oriundos de classes sociais mais abastecidas, raramente se vê um filho da pobreza cursando medicina nas universidades públicas.

Na preparação estudantil, esses alunos frequentam escolas privadas, fazem cursinhos privados preparatórios para ingresso na Universidade PÚBLICA… Tais alunos vislumbram fama e sucesso em seus futuros consultórios. Aprendem nas universidades e fazem suas especialidades para  se estabelecerem em grandes centros. Os estágios são apenas necessários para conclusão do curso. Os doentes das periferias, do interior do seu município são cobaias vivas internados nos hospitais universitários ou frequentadores dos postos de saúde.

Não há interesse de a sociedade capitalista que reina no Brasil em  ensinar seus profissionais da saúde para dar atenção à prevenção e promoção da saúde. A saúde curativa é a que dá lucro.  É o modelo hospitalacêntrico, que pensa só na doença e no tratamento.

Se a lógica do capital é esta, então está explicada a revolta da corporação médica.

Afinal quem perderá com a mudança proposta pelo governo? O capital que terá seus atores principais afetados: o corporativismo médico, os grandes hospitais que vivem sugando do SUS e a indústria farmacêutica.

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